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Sextilhas de Frei Antão

Gulnare e Mustafá

Deus Senhor foi quem nos céus
Pendurou milhões de estrelas,
Foi quem matizou a terra
De froles várias e belas,
Quem ao mar por ser pujante
Areias deu por cancelas.
Mandou mais qu'árvoles fortes
Das sementes germinassem,
Que dessem froles mimosas,
Que perfumes trescalassem,
E mais fez que em tempo azado
As froles frutificassem.
Pois aquele anjo das trevas,
Imigo da humanidade,
Nas árvoles pôs carcoma,
Pôs na frol muita ruindade,
Pôs nos céus a nuvem negra,
Pôs no mar a tempestade.
Nem só nas coisas terrenas
Dana, e faz mal o tredor,
A alma também por mil modos
Tenta com jeito e sabor,
Que troca o prazer celeste
Em penas d'eterna dor!
Mas não foi jamais que Deus
Em tal feito consentisse,
Senão porque suas posses
O homem bem claro visse,
Que sem ele fora o mundo
Maldade só e sandice.
Mas que mal há hi na terra
Que não venha pera bem?
Os d'aqui desta amargura
Dão coita, e glória porém;
Dos outros que traz o demo
Deus o remédio lá tem.
Do mal que me foi comigo
Acontecido, al não sei,
Senão que por amor dele
Muito má vida levei,
Que me dá coita mui grave
Do mal que me comportei.
Como já fiz penitência,
Ora farei confissão;
Tal será, qual foi o escând'lo
De que fui ocasião:
Não me tomem por modelo,
Mas tomem de mi lição.
Não é pera honra minha,
Mas pera honra dos céus,
Que eu direi publicamente
Os feios pecados meus;
Toda a vergonha foi minha,
Toda a honra cabe a Deus.
É uso assi na milícia
Celeste, e mais na d'aqui:
Dá batalha o cabo experto,
Desses muitos que há per hi;
Toda a presa aos seus concede,
Só loa quer pera si.
A Princesa Dona Joana
Já vive dentro d'Aveiro;
Consigo trouxe os escravos,
Que lhe trouxe o rei fragueiro;
O que às terras africanas
Passou, e voltou primeiro.
Vieram aqueles feios
Netos d'Agar, inda mal!
Traçando vastas roupagens
À maneira oriental;
Larga faixa na cintura,
Na faixa largo punhal.
Era pasmo vê-los juntos
Polas ruas passear,
Passo a passo — graves, mudos,
Com doairos d'espantar,
Profundas rugas na fonte,
Rugas de mau meditar.
Levar trás si tanta gente
Nunca a ninguém vi assi;
Nem folias, nem cantares
Vi com tal cauda após si,
Bodo, nem festa d'orago
Bufão, e nem bolati'.
Mas quem viu acaso as turbas
Correrem trás algum bem?
Vão todas após engodos,
Após maldades também;
Mas seguir a Deus por gosto
Nem as vi, nem viu ninguém.
Com estes mouros descridos
Vieram também aquelas
Mouras, filhas da Mourama,
Donas, creio, muito belas;
No trato e no galanteio
Outras que tais Magdanelas.
Vinha também a menina,
Aquela moira fatal,
Que nas ruas de Lisboa
Vi no cortejo real:
Cortejo del-rei Afonso
Vi-o eu, só por meu mal!
Quantas coisas que trazia,
Nula rem lhe estava mal;
Diziam que tudo nela
Tinha graça natural,
Era coisa preciosa,
Como coisa oriental.
Aquela abelha sem dardo,
Aquela pomba sem fel
Passava noites inteiras
Tangendo n'um arrabel,
Coando vivas saudades
Dos lábios, em leite e mel.
E, alta noite, nas trevas
Ouvindo na solidão
Aquele triste istromento,
Al não disseras, senão
Que o mesmo demo voltado
Era n'aquela feição.
Porém zagales da serra
Mil vezes, no fim do dia,
Polos montes não buscava
A sua ovelha erradia;
Mas no bordão apoiado
De si mesmo se esquecia.
Cant'eu vendido e prasmado
De todos e mais de mi,
Mil vezes fugi da cela,
Té das matinas fugi,
Mil vezes durante a noite
Aquele istromento ouvi.
Mil vezes!.. e não sei como
Isto foi, que o não sentia,
Quando mal me precatava,
Dava comigo que ouvia
Dilatar-se polos vales
Aquela doce harmonia.
Assi todo embevecido
Bons sonhos que então sonhei,
Boas venturas que eu tive,
Bons cismares que eu cismei!
Esqueci-me de ser frade!
Como isto foi, já não sei.
E se às vezes me lembrava
Do juramento que dei,
Do encargo que me tomara,
E das vestes que eu tomei,
Chorava; e não sei bem como
Em pranto não me afundei.
Derramei n'aquelas brenhas,
Cheio d'estranha afoiteza,
Palavras dadas ao vento
Com muito feia crimeza,
Contra mi e contra todos,
Contra toda a natureza.
Polas serras, polos matos,
Polas voltas dos caminhos
Rojei nas sarças mordentes
E nos cardos montesinhos,
Rasgando os brancos vestidos
N'aquelas matas d'espinhos.
E não sei, oh! não sei como
Todo eu não fiquei ali,
Como eu que por tantas vezes
Rosto nas rochas feri,
Não perdi o ser de todo,
Nem sequer ensandeci.
Então ao Senhor clamava:
« Cegueira, Senhor, me dás!
Cinge-me os rins larga zona
De ferro, e bem me não traz;
Trago cilícios mordentes,
Usando burel mordaz.
« Abro e vejo o livro santo,
E vejo que não sei ler!
Aqueles santos ditames
Já n'os não sei compr'ender;
Enojo ocupa minha alma,
Hei pavor de me perder!»
Donde pois me vinha a mi
No próprio bem ver o mal?
Conheci no meu exemplo,
Que m'era de ser fatal:
Senhor, teu santo remédio
É triaga cordial.
Bem como o ferro na frágua,
No sofrer a alma se apura,
Assi que disse eu comigo
Que a triaga também cura,
Quanto mais amarga e punge,
Poder de sua amargura.
Aquela negra peçonha
Lavrando foi pouco e pouco;
Roía coita d'amores
Miolo cavado e oco,
Já era o mal dentro d'alma,
E eu dele rendido e louco.
Diziam meus bentos Padres;
« Que é feito de Frei Antão?
Negra dor o tem por certo,
Negra dor de coração:
O demo o fez, porque visse
Turvada tal perfeição.
« Parece já de esquecido
Que nem de si tem lembrança!
A tábua se achega apenas,
Não toma a sua pitança;
Té nos ofícios divinos
Perdeu a sua trigança.
« Sai à noite muitas vezes,
Diz o bom do Guardião:
Sair à noite, a desoras,
Certo não é devação:
Que faz de noite nas ruas
Um padre, ou frade ou cristão?»
Com tudo alguns dos mais velhos
Diziam: » ¿ Que há hi de mal?
O quer que é que o perturba,
Coisa não é natural:
Deve ser condão divino
Ou graça celestial!
« Pois um santo como aquele!
Quem é que o há de tentar?»
Eis senão quando começa
Voz, não sei donde, a zoar
Que Frei Antão já não sabe
No seu rosairo rezar!
E o caso foi que um noviço
Tirou-mo só de matreiro,
Tendo-o fechado consigo
Por novena ou mês inteiro;
E eu d'outro me não provera,
Sendo que tinha dinheiro!
Todolos meus defensores
Voltaram-se contra mi;
Diziam que era mal feito
Um santo mentir assi:
Seja-me Deus testemunha!
Nem santo sou, nem menti.
Logo em Comunidade
Propôs-me o Provincial:
« Dizei peccavi, meu Padre,
Que vos havedes tão mal,
Que não rezades as rosas
Da virgem celestial!»
Ouvido que foi por mi
Tão solene mandamento,
A mi, que primara sempre
Adentro do meu convento,
Não sei que pejo maldito
Acorreu-me ao pensamento.
Não era feio o pecado,
Mas confessá-lo; e assi
Fiquei de pavor transido
Mal que tal preceito ouvi:
Homem não era de carne,
Montanha de pedra — si.
Torvado, calado e mudo
Nada não sube dizer;
Nem confessar meu pecado,
Nem ao menos responder:
Ficaram como suspensos
Os que eram ali a ver.
O grave Provincial
Rompe o silêncio, e « Asinha
Trazei, disse ele, o hissope,
Mais a benta caldeirinha;
Ver demo em corpo de frade
Coisa não é comezinha!
Corre afanado o Sacrista
Pera a sua sacristia,
Traz prestes a caldeirinha
Banhada inteira na pia;
Rezava mil rezas suas,
Mil esconjuros dizia.
Do sacrista amedrontado
Recebe o Provincial
O hissope todo molhado,
Dizendo sacerdotal;
« Fugide, partes adversas,
Demônio, esprito do mal.
« E mais deixa a criatura
Por amor de quem Jesus
Sofreu marteiro afrontoso,
E morte vil n'uma cruz;
Em nome do Padre e Filho
E Esprito, que sempre luz!»
Ouvido aquele esconjuro,
Cego de toda a rezão,
Larguei-me do refeitoiro,
Fugindo como um ladrão:
Clamaram todos em grita:
« Chantou-se nele o Legião!»
Enfiei os claustros todos,
Passei pola portaria,
Achei-me em lugar, de noite,
Que eu mesmo não conhecia:
Os sons do arrabel moirisco
Somente dali se ouvia,
No entanto os Padres prudentes
Discursavam entre si,
Diziam dos esconjuros
Que mal cabiam em mi,
Que era grande sacrilégio
Usarem comigo assi.
Ai! sacrílego era o homem
Que ao inferno se vendia,
Era o cristão que adorava
As filhas da idolatria,
Que dentro em si tinha o Demo,
Que o Demo em si não sentia;
Era o Padre que trocara
O amor de seu Senhor
Por amor d'uma Donzela,
Filha d'aquele impostor,
Mafoma, falso profeta,
Mafoma, judeu tredor!
A princesa Dona Joana
Mandou ao nosso Convento:
Qu'eu prestes vá ter com ela
Manda por seu mandamento;
Não quer demora nem falta,
Negócio diz de momento.
Qual seja o negócio urgente
Não m'o diz a mensageira;
Não sabe coisa de certo,
Não dirá coisa certeira:
O hábito à pressa enfio,
Tomando-lhe a dianteira.
E logo chamada à grade
Veio a Princesa real:
« Meu Padre, disse-me entonces,
É fora do natural
Qu'eu tenha escravos, e mouros,
Rainha de Portugal.
« Ide vós porém chamá-los
Pera o rebanho cristão;
Casade-os vós muito embora,
Que bem daí haverão:
Eu lhes darei corpo livre,
Deus Senhor a salvação.»
Sequer uma só palavra
Não tive n'aquele ensejo,
Sustou-m'a já na garganta
Não sei que mesquinho pejo;
Por confessar meu pecado
Em vão trabalho e forcejo.
Vergonha foi o que eu tive,
Vergonha que todos têm;
Último fruto colhido
N'aqueles jardins do Éden;
O Demo o tocou primeiro:
Todo o seu mal daí vem!
Como está no fundo lago
O verde limo acamado,
Assi deitado e mimoso
Brilha lustre aveludado;
Tal é aquela vergonha,
Que vem após o pecado.
Mas remechei nas raízes
Do limo que é tão viçoso,
E vereis como se prendem
No fundo impuro e lodoso:
Ali com elas se abraça
O feio verme asqueroso!
Ali mil serpes ocultas
Vivem, cruzando laçadas,
Muitos sapos bufadores,
Muitas rãs esverdinhadas;
Umas coisas de má sina,
Outras coisas mal fadadas
É força falar a moira!
Disse comigo, e assi
Andava curtas passadas
Por não chegar; ai de mi!
Tem termo toda a jornada,
Cheguei! por que não morri?
Já d'aqueles outros moiros,
Tão feros, não se me dava;
Mas de suor de maleitas
O corpo se me banhava,
Quando d'aquela menina
Mourisca, me recordava.
Lançado em covil de feras
Foi o santo Daniel,
Fui eu no covil lançado
D'aquela gente infiel;
Era ele experto em tais lutas,
Eu em tais lutas novel.
Entrei no quarto da moira,
Leixando a mais gente vil,
Ardia doce perfume
Em transparente viril;
Sobre um bofete lavrado
Vi um lavrado gomil.
Tinha o quarto uma só porta
Que um reposteiro cobria,
E um pano de seda verde
Sobre a estreita gelosia,
E mais um denso tapete
Que o som dos passos comia.
Trazia a moira mimosa
Vestes de branco cetim
Entreteladas parece
De coisa de bocachim,
E umas largas pantalonas
Respirando benjoim.
Trazia um jubão mui justo
De seda azul anilado,
Com longas mangas perdidas,
De carmim todo forrado,
Como se fora um alfange,
Na cintura recurvado.
Coifa branca auri-bordada
A negra coma apertava;
Que doces anéis brincados
A negra coma formava,
Quando por vezes no colo
De neve — se debruçava!
Sob as largas pantalonas
Um pezinho delicado
Saía nuzinho e belo,
Mimoso e branco e nevado;
Em chapins dos mais pequenos
Parecia andar folgado.
Em cada um dos seus dedinhos
Trazia a moira um anel;
Meio deitada, a desleixo
Tangia no arrabel;
Tangia-o com tanta graça,
Nem que fora um menestrel.
A letra que ela cantava
Era de língua algemia;
Era qual trinar das aves
As notas em que gemia,
Saudades de longes terras
Em peregrina harmonia!
Era menina e formosa,
Nunca lhe vi sua igual!
Coisa assim tão primorosa
E tanto celestial,
Ou era filha dos anjos,
Ou filha do pai do mal.
Deus Senhor, entre luzeiros,
E o demo em sua cegueira,
Fazem quase as mesmas coisas
Mas por diversa maneira;
O Demo como quem é,
Deus como luz verdadeira.
Pois este pôs a virtude
Entre aflições dolorosas,
Qual frol de rosa entre espinhos;
Em ledices enganosas
Pôs o demo o seu pecado,
Qual feia serpe entre rosas.
Quanto o sol mais se abaixava,
Tanto mais alto gemia
Aquela moira mimosa,
Que as suas mágoas carpia:
É hora que espalha enlevos
A hora do fim do dia!
O pássaro então das ramas,
Louvor a nosso Senhor!
Último voo desprega
E um doce grito de amor;
Nas penas esconde o bico,
Nem teme o visgo tredor.
As froles do sol viúvas,
Definham, só de tristura;
O mar soluçando geme,
Mais alto a fonte murmura,
Reina o silêncio que fala,
Bafeja a doce frescura.
« Vistes vós meu bem amado,
(Dizia a filha d'Alá)
« Vistes vós meu bem amado,
« O meu senhor Mustafá!
« Se o vistes, dizei-me onde!
« Por alma vossa, onde está?
« A noite o leixou fechado
« Portas adentro do harém:
« Sorvia aqueles perfumes
« Que lá d'Arábia nos vem,
« Trajava os reais vestidos
« Que lhe caíam tão bem.
« Já era sobre manhã
« Quando de mi se apartou;
« Seu negro corcel d'Arábia
« D'um pulo só cavalgou,
« E o sol que vinha raiando
« Lá na montanha o topou.
« Viu dali seus bons guerreiros,
« Em alas prontos estão;
« De fronte mal enxergava
« O troço do rei cristão;
« Disse o crente musulmano;
« Alá m'os trouxe, meus são!
« Alá! lhes grita o guerreiro,
« Respondem-lhe os seus: Alá!
« Gritam Cristãos: São Tiago!
« E o meu senhor Mustafá
« Desceu então da montanha,
« Que nunca mais subirá.
« Desceu ele da montanha
« Qual rocha descomunal,
« D'agudo cimo tombando,
« Arrasando o pinheiral;
« Mas a rocha em fundo vale
« Faz-se pedaços, em mal!
« Desceu ele ao fundo vale,
« Como o tufão queimador;
« Polos cristãos inimigos
« Cortou sem pena e sem dor;
« Raio d'esforço na guerra
« Foi Mustafá, meu Senhor!
« Mas o vento do deserto
« Depois de medas formar
« Das areias que aglomera,
« Onde é que vai acabar?
« Mafoma e Alá que m'o digam,
« Que eu não sei senão chorar!
« Alá quebrou teu orgulho,
« Meu bom senhor Mustafá!
« Alá quebrou teu orgulho,
« Mas quando se acabará
« Vida que vives de escravo,
« Vida que levas tão má?
« Doces Huris do Profeta
« Lá do palácio de Alá!
« Olhavam cá pera baixo
« Só pera ver Mustafá!
« Guerreiro não foi como ele,
« Como ele ninguém será.
« De ser ele o meu amado,
« Ai que já fui bem feliz!
« De ser ele o meu amado
« Tinham-me inveja as huris:
« Ora não há quem m'inveje!
« Foi Alá que assim o quis.
« Ora não há quem m'inveje!
« Tenho no peito aflição;
« Escrava sou d'um escravo,
« Escravo d'um vil cristão!
« Mesquinha, que ainda o amo;
« Trago-o aqui no coração!»
Então pera junto dela
Cheguei-me sem ser sentido;
Falei-lhe em som cavernoso,
Medonho e baixo no ouvido:
¿ Por que assi amas o escravo?
Disse eu, do meu mal vencido.
Foi certo o esprito malvado
Quem pera ali me arrastou,
Quem nos meus castos ouvidos
Palavras tais derramou,
Quem aos pés da moça moira
O velho padre curvou.
Era ele quem nos meus ombros
Pesava co'o peso seu,
Quando a moira espavorida
Do vasto leito se ergueu:
Vendo-me ali de giolhos,
Baixou de medrosa o véu.
O véu baixou de corrida,
Mas antes seus olhos vi;
Aqueles olhos fermosos
Lavar-me o rosto senti,
Tocar-me no fundo d'alma,
Tirar-me todo de mi.
Luz que vi d'aqueles olhos,
Ora bem se me figura
A lua rasgando as trevas
Em meio de noite escura:
Vi Diana a caçadora
N'aquela hardida postura.
Mas a moira de repente
Um grito franzino dá!
De mi se parte voando,
¿ Senhor Deus, o que será?
Volto prestes a cabeça...
Vejo o mouro Mustafá!
Em roda do seu pescoço
A moira os braços prendeu;
Arfa-lhe o peito açodado;
Pera trás roja o seu véu,
Of'rece o rosto mimoso
Aos beijos d'aquele incréu!
Era assi qual amorosa
Hera que um robre vingou;
Ligou-se estreita com ele,
Do tope se debruçou,
Folha meteu pelas folhas,
Vida com vida casou.
« Gulnare, disse-lhe o moiro,
Gulnare, meu doce amor,
Melhor que a rosa da Pérsia,
Que arábio incenso melhor,
Frol dos jardins do profeta,
Que dás mate a minha dor!»
Responde a moira mimosa:
« Dizes bem, meu Mustafá;
O fogo chegou-se ao incenso,
O incenso eflúvios dará;
O sol cintila na rosa,
A rosa ressurgirá.»
Abelha, tornou-lhe o moiro,
Que sussurras de agastada,
Erva, que as folhas constringes
De estranho corpo tocada;
Quem tocou na minha abelha,
Quem na erva delicada?
Ela então só de malquista
Deu-lhe d'olhos pera mi;
Santo Jesus! em que apertos
N'aquele ensejo me vi,
Prendia-me força oculta,
Foi porém que não fugi!
Trazia o moiro atrevido
Adaga no boldrié;
Deixar a moiros com armas,
Gente de baixa ralé,
Em que escravos de Princesa!
É certo estranha mercê.
A mão no punho da adaga,
A passo, vem sobre mi;
Trinca as pontas do bigode
Quais cerdas de javali;
A barba toda se erriça,
Que feio rosto lhe vi!
Os olhos que me lançou,
Jamais não vi seus iguais;
Deviam ser puro fogo,
Senão faíscas fatais
D'aquele sol do deserto,
Que abrasa e funde areiais.
Negros olhos de pantera,
Luzindo em feia spelunca;
Olhos, que o giro do sangue
Nas veias demora e trunca;
Olhos cheios de carniça
E dela não fartos nunca.
A mi chegou-se, inquirindo,
« ¿ Que vieste aqui fazer?»
Fiquei deslogo tremendo
Sem lhe poder responder:
« Senhor,... em nome do céu!
Disse eu; que havia dizer?
« Em nome das três pessoas
« Da trindade em uma só,
« Eu vos rogo, senhor moiro,
« Que sequer tenhades dó
« Da alma vossa arriscada,
« Já não do corpo, que é pó.»
N'aquele ensejo apertado
De santo ardil me vali;
Lembrou-mo o exemplo sagrado
Da forte hebreia Judith!
Ser isso influxo divino
Sabendo fiquei dali.
Tornou-me o moiro descrido:
« ¿ E a mi que m'importa mais
« Que viver entre valentes
« Em gozos celestiais,
« Entre jardins prazenteiros,
« Entre fagueiros rosais?
« Tu me falas dos teus Deuses!
« Há outros sem ser Alá?
« Alá, que o voo dirige
« Do benfazejo Kathá!
« Cristão; dos teus falsos Deuses
« Bem pouco a mi se me dá.
« Digo-te eu, que eles não podem,
« Mais que digas que são trinos,
« Suster no ar do profeta
« Os santos restos divinos,
« Que a Meca chamam por ano
« Milhares de peregrinos.»
Ouvindo aquelas blasfêmias
Senti arrojo dos céus;
Ia falar, mas o moiro
Tornou-me: « Só Deus é Deus,
« E Mafoma o seu Profeta,
« Em que pese isto aos incréus!
« O que penso, sem resguardo
« Dir-t'o-ei, cristão, alfim;
« Não usa como vós outros,
« Maometano Muezim,
« Não vai à casa dos crentes,
« Não leva tenção ruim.
« Não roja, não, de giolhos
« Aos pés de cristã donzela:
« Mas lá dentro da Mesquita
« Vive sempre e sempre vela,
« Ou do alto minarete
« Às preces crentes apela.
« Portas adentro do templo
« Imagem da crença pura:
« Do alto do minarete
« A imagem d'Alá figura,
« Bradando incessante e sempre
« Aos homens, daquela altura.»
« É assi entre vós outros,
« Tornei-lhe, que entre nós não.
« Queremos em cada peito
« Um templo de devação,
« Em cada peito um sacrário,
« Um padre em cada cristão.»
Sobresteve mudo e quedo,
E como que refletia
O moiro, que me parece
A graça em si já sentia,
A graça que o céu nos manda
Como orvalho em noite fria.
Mas não era inda chegado
Aquele ensejo feliz,
Que passado curto prazo
Severo o moiro me diz:
« O que Deus faz é bem feito:
« Moiro nasci, não me fiz!
« Leixemos pois tal assunto,
« Dele não quero tratar;
« Ou antes dizei, bom Padre,
« Qu'ides carreira tomar,
« Adotando novo ensino,
« Novo modo de pregar.
« Andai por essas estradas
« E dizei à vossa gente:
« A vós que mal vos hão feito
« Os homens lá do oriente,
« Que vos livraram dos godos,
« E do servir inclemente?
« As vossas artes que tendes
« Cujo as havedes? — de quem?
« Donde vêm as vossas terras
« Campos de lavra que têm,
« E as torres acasteladas,
« E as mesquitas, donde vêm?
« Quem nos vossos negros montes
« As alcáçovas plantou,
« Como cândido turbante,
« Que na fronte se enrolou
« De um homem da cor da noite,
« Que a Núbia ardente engendrou?
« Ou s'isto melhor te praz:
« São obras de reis pujantes,
« Tendas ricas e pomposas
« No dorso dos elefantes;
« Cr'oas de pedra lavrada
« Na fronte d'altos gigantes.»
Estes mouros na verdade
Qu'esprito e graça que têm?
Quando vos dizem mentiras,
Sabem dizê-las também,
Que havemos de perdoar-lhes,
E em cima querer-lhes bem.
Mas andam tanto enfrascados
No seu maldito alcorão,
Que era de ser o primeiro
A sofrer condenação
N'aquele santo concílio,
Honra do nome cristão.
Se d'algo me pesa a mi
É só polos não ver mais;
Faziam pronta justiça
Destes e d'outros que tais:
Ardiam com seus autores
Em bons aplausos gerais.
Se deles houvesse agora,
De que pró nos não seria?
Vive tal livro entre gabos,
Que ali do fogo arderia,
Com pasmo de seus autores,
Que os têm por coisa mui pia,
E d'outros que só por artes
Fruem da voga que têm,
Que não sei onde é seu preço,
Nem donde apreço lhe vem,
Senão por vias ocultas,
Que as não descobre ninguém!
Mas leixemos estas coisas,
Que não são de boa avença!
O livro que eu reprovara
Por muito justa sentença
Trouxera-me coita grave,
Com mais grave malquerença.
Leixemos pois estas coisas;
Bem qu'eu não saiba falar,
Senão com longos rodeios:
(Vem-me o sestro de pregar)
Quando me julgo no cabo,
Mais longe estou de acabar.
« Mouro, n'aquela batalha,
« Disse eu, ouvidos me dá,
« Quando o reino teu perdeste,
« Não chamaste por Alá?
« Não te ouviu! — chama por Cristo,
« E Cristo, Deus, te ouvirá.
« Vás as terras da Moirama,
« Ou fiques em Portugal,
« Senhor serás do teu corpo,
« Vida terás natural:
« Vê se Gulnare formosa
« O teu profeta não val!
« A moira que não foi feita
« Pera servir a senhor,
« Que de bela e de mimosa,
« Parece que o mesmo amor
« O corpo tem de quebrar-lhe,
« E de apagar-lhe o candor.
« A moira, doce nascida,
« Doce criada; perol
« Que só sabe apavonar-se
« Da manhã polo arrebol,
« Não nos jardins destas partes,
« Mas onde mais queima o sol.
« A moira bela e mimosa!
« Avezinha pipitante,
« Qu'ama ar puro, espaço livre,
« E céu de cor deslumbrante,
« Que o voo fugaz desprega,
« Quando o sol é mais brilhante!
« Ai! não guardes a avezinha
« Dentro de estreita prisão,
« Não mudes a frol mimosa,
« Que bem está no seu torrão:
« Vai às terras da Mourama;
« Se queres ir, sê cristão.»
Uma lágrima brilhante,
Como que a furto luzia
Nos olhos da moça moira,
Que o moço mouro cingia;
Em que nada lhe dissesse,
Muitas coisas lhe pedia
Em que algo não lhe escutasse,
O mouro bem compr'endia
Que mudas falas falava,
O pranto que ela vertia:
Saudades eram da Pátria,
Que o mouro em sonhos só via.
¿ Como havia resistir-lhe,
Se ela pedia chorando,
Se o mal por que ela passava,
Também 'stava ele passando,
Se o bem, que lh'ela pedia,
Lhe estava dentro falando?
Mas quando os vi abraçados
E aquele amor entendi,
Do efeito das minhas vozes
Eu mesmo me arrependi;
Cravei as unhas no peito,
Pesar de morte senti.
Té cheguei a ter desejos
De ouvir-lhes um não revel,
E que então a moça moira,
E mais o mouro Donzel
Parassem no fundo inferno,
Provassem, como eu, seu fel.
Mas n'um coração sincero
Que poder que o pranto tem,
Quando no peito o sentimos,
Quando de uns olhos nos vem,
Que fora morrer por eles
Prazer e mui grande bem!
Pedido tão gracioso
O mouro agreste rendeu;
De leixar o seu Mafoma
Logo desli prometeu,
Leixando a avença do demo,
E os ritos do culto seu!
Já me não sinto enleado
Se o padre Adão manducou
Aquele fruto do Éden;
Foi Eva quem lh'o ofertou,
Eva, mulher e sozinha,
Aqu'ele primeiro amou.
Mas quem tem visto mulheres,
E tem a sua mulher,
Ceder-lhe do seu proposto
Por mero condescender!
Se não é coisa do demo,
Não sinto o que possa ser.
Mas fez mais a linda moira!
Que sem me fazer pedido,
Entendi que por amores
Não devia andar perdido;
Quando por outro era amada,
Por outro dela querido.
Um pobre frade coitado
Bem sabe que nada tem
Nesta vida mal passada,
Onde quitou todo o bem;
Ninguém que vele por ele,
Sobre quem vele — ninguém!
Curar da mãe enfermada
Bem pode o homem segral;
Há sempre casta donzela,
Que se doa do seu mal:
O frade só, despojado
Vive do foro humanal.
Viveram aqueles mouros
Depois desta ocasião,
Muitos anos bem logrados,
Em amor e devação;
Louvor ao santo batismo!
Louvor ao nome cristão!
Mas quando foi que nos veio
Aquela peste primeira,
Seta que o alvo atingia
De bem talhada e certeira,
Chegou ao cristão novato
Hora vital derradeira.
E a moira por este evento,
Cheia de muita aflição,
Recolheu-se irmã noviça
No convento d'Azeitão,
Onde viveu muitos anos
Em aturada oração.
Madres d'aquele convento
Dizem que a viram rezar,
Em êxtasis jubilosas
Suspensa, erguida no ar;
Favor do esposo divino,
Milagres do muito amar!
Ouvindo aqueles extremos,
Comigo logo assentei
Que eu fora um pastor perdido,
Que nas sombras divaguei,
Té qu'uma ovelha perdida,
Mercê de Deus, encontrei!
E a moira que eu tanto amara,
Desli se me figurou
Cândida lã d'ovelhinha,
Que a sarça agreste cardou;
Ficou na sarça prendida,
Ao vento se meneou.
E alguém que ali divagava
Felpas da lã recolheu,
Bateu-as na fonte pura,
E em branca tela as teceu;
Depois no altar consagrado
Ao Senhor Deus of'receu.
A mão de Deus poderoso
Bem claro se vê então,
Quando o torpe ismaelita
Faz-se devoto cristão:
Só ele um bom diamante
Pode fazer do cravão.
Mudar o vício em virtude,
E a fraqueza em valor,
E o calor em frescura,
E a frescura em calor,
E tudo assi por davante,
Só ele, que é Deus Senhor.
Louvor a Deus nas alturas!
E aos homens de bom talante
Na terra paz e ventura;
Paz e ventura constante,
Senão na vida que passa,
Na vida que sempre dura.

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