Sonetos
Grão tempo há já que soube da Ventura
Grão tempo há já que soube da Ventura
A vida que me tinha destinada;
Que a longa experiência da passada
Me dava claro indício da futura.
Amor fero e cruel, Fortuna escura,
Bem tendes vossa força exprimentada:
Assolai, destruí, não fique nada;
Vingai-vos desta vida, que inda dura.
Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
E porque mais sentisse a falta dela,
De imagens impossíveis me mantinha.
Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
Não foi melhor, vivei nesta alma minha;
Que não tem a Fortuna poder nela.