Tarde · Édipo
I
A Pítia
“Repetiu-me Apolo o vaticínio: que eu seria o assassino de meu pai; e rei; e marido de minha mãe, sem a conhecer; e tronco de uma prole infame!...” (SÓFOCLES. Édipo Rei.)
Em Delfos. Com pavor, de pé, no ádito escuro,
Édipo escuta... O deus, rugindo de ira e ameaça,
Pela boca da Pítia em êxtase, devassa
O tempo, e o arcano véu destrama do futuro:
“Rolarás do fastígio à ignomínia e à desgraça!
“Rompendo de um mistério o impenetrável muro,
“Num sólio ensanguentado e num tálamo impuro
“Gerarás, parricida, a mais odiosa raça!”
É a Esfinge, a glória, o reino, o assassino de Laio,
E o amor sinistro... Assim troveja a voz de Apolo
E enche o sacrário... O céu carrega-se de bruma;
Fuzila; estruge o chão; reboa no antro o raio...
E, enquanto Édipo tomba inânime no solo,
Sobre a trípode a Pítia, em baba, ulula e escuma.