Tarde · Édipo
III
Jocasta
“Trevas espessas! eterna, horrível noite! sou dilacerado pelo espinho da dor e pela memória dos meus crimes!” (SÓFOCLES. Édipo Rei.)
Édipo vê cumprir-se o oráculo funesto:
Tebas entregue, em luto, à peste que a devasta,
E, sobre o trono em sânie e o leito desonesto,
Morta, infâmia da terra e asco do céu, Jocasta.
Louco, vociferando, erguendo a grita e o gesto
Contra os deuses, mordendo a poeira em que se arrasta,
O mísero, medindo o parricídio e o incesto,
Quer da vista apagar a lembrança nefasta:
Os dois olhos, às mãos, das órbitas arranca
Em sangue borbotando, em lágrimas fervendo,
Para o pavor matar na esmagada retina...
Mas, cego embora, — vê Jocasta hedionda, branca,
Enforcada, a oscilar, como um pêndulo horrendo,
Compassando, fatal, a maldição divina.