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Aleluias

Deus impassível

A Augusto de Lima
Raça de Ahasvérus, a arquejar convulsa,
Rostida pelo açoute da desgraça,
Rota, sangrenta e exul, maldita raça,
Que errante vais, de plaga em plaga expulsa;
Como tu, sobre quem, povo execrando,
Duro anátema pesa, a Humanidade
Vai a herança da dor, de idade a idade
E gerações a gerações, levando...
Mas de que serve, à eterna padecente,
Que, as mãos torcendo, anele, exore e lute;
E, enfim, porque ninguém, na terra, a escute,
No céu, para escutá-la, um deus invente?!
De que lhe serve, desolada e triste,
Que o fumo das blasfêmias, de mistura
Com o odor da oração, ascenda à altura,
Onde esse deus, que ela inventou, existe?!
De que serve, por séculos afora,
Clamares tu, se num deserto clamas?
Se o deus, que ouvia, entre o sarçal em flamas,
O clamor de Israel, é surdo agora?!
De que serve, se é surdo?! De que serve,
Se não pode auscultar, dessa maneira,
Teu coração, que—horrível cachoeira
De soluços e lágrimas—referve?!...
Em vão esperas: nutres a esperança
De um impossível—esperança louca!
Ou desesperas; ou te aflui à boca,
Na azia do ódio, a bava da vingança!
Teu pranto há de estancar, em vão! Teu grito
Sem eco há de morrer!...
Ah! mudo e imoto,
Acima, além, do etéreo azul ignoto,
Do esparavel dos astros infinito,
Onde a árvore dos sóis longínqua abrolha,
—Sem que um só guai por seus ouvidos passe,
Nem a mais leve contração na face
De algente mármore—
O Impassível olha!

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