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Aleluias

Nirvana

Ao Barão de Paranapiacaba
Nirvana um dia a enorme e desmedida goela
Escancarou na sombra; e eis a engolfar-se nela
Tudo que então vivia é o que viveu após...
Como um mar que, embocando impetuoso a foz
De um rio, de roldão arrasta nesse impulso
Tudo que encerra à flor e no âmago convulso:
Cetáceos, cabedais submersos, escarcéus
De espuma, grandes naus, selvas de mastaréus
E quilhas... assim tudo o atro golfão devora.
Monstros fenomenais cuja ossada apavora;
Abortos da satúrnia idade; colossais
Destroços de Heracleia, acrópoles reais;
Cidades que os vulcões inda em cinzas sepultam;
Maciças construções, que a tempestade insultam;
A Pirâmide, a sáxea Esfinge, o Mausoléu,
Monumentos que, outr'ora, o esforço humano ergueu
Para invadir o Olimpo e eternizar a glória;
Mortas populações de que é sepulcro a História;
Semideuses, heróis, tronos, religiões...
Passa tudo e se esvai.. Séculos, estações,
Escoam... Tropicais canículas fulgindo
Vão-se; invernos, chorando, e primaveras, rindo...
Tudo em vórtices vai passando, sem cessar,
Para no grande Nada hiante se atufar
Porém, como o Passado e o Presente, o Futuro
Há de ver sempre aberto o sorvedouro escuro;
Ruja a Guerra, ou floresça a oliveira da Paz!
Tudo ele engole, tudo, e nada o satisfaz!
Beba de um sorvo o oceano inteiro; e, nas entranhas,
Sotoponha depois montanhas a montanhas!
Entulharam-lhe o bojo amplo e descomunal?
Ei-lo afinal saciado? Ei-lo farto, afinal?
Não! É como o tonel das Danaides, sem fundo,
Esse medonho caos voraginoso! O mundo,
Mole imensa, partindo o eixo em que roda, em vão
Nele descambará; não o sacia, não!
Florestas, areais e ilhas, num só momento
Absorve; e ei-lo inda ao vácuo uivando famulento.
Que resta mais, enfim, para o seu ventre encher?
Resta o infinito além, vivo, a resplandecer.
Pois bem. Que o desmantele horrível cataclismo!
Rolem constelações; e encha o insondado abismo
Esse outro, onde mil sóis palpitam triunfais!
Nada mais resta...
E o Nada inda apetece mais!

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