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44–66

A montanha interior

44 Enquanto Antão assim discorria, todos se alegravam: em uns crescia o amor da virtude, de outros era lançada fora a negligência, e em outros cessava a presunção; e todos se persuadiam a desprezar as ciladas dos demônios, admirados da graça que o Senhor dera a Antão para o discernimento dos espíritos. Havia, pois, nas montanhas os mosteiros, como tendas cheias de coros divinos, de homens que salmodiavam, estudavam, jejuavam, oravam, exultavam na esperança dos bens futuros e trabalhavam para dar esmolas, e que tinham amor e concórdia uns com os outros. E era verdadeiramente de ver como que uma terra à parte, de piedade e de justiça. Pois não havia ali quem fizesse injustiça nem quem a sofresse, nem as queixas do cobrador de impostos; mas uma multidão de ascetas e, em todos, um só ânimo voltado para a virtude; de sorte que quem visse os mosteiros e tal ordem entre os monges havia de exclamar de novo e dizer: “Quão belas são as tuas casas, Jacó, as tuas tendas, Israel! Como vales umbrosos, como um jardim à beira do rio, como tendas que o Senhor armou, como cedros junto às águas!”

45 Ele, porém, retirando-se como de costume a sós em seu mosteiro, redobrava a ascese e gemia todos os dias, pensando nas moradas do céu, cheio de desejo delas e considerando como é efêmera a vida dos homens. Pois, quando ia comer e dormir e atender às outras necessidades do corpo, sentia vergonha, ao pensar na natureza intelectual da alma. Muitas vezes, quando ia comer com muitos outros monges, lembrava-se do alimento espiritual, escusava-se e afastava-se para longe deles, julgando que havia de corar se os outros o vissem comer. Comia, contudo, a sós, por necessidade do corpo; e muitas vezes também com os irmãos: envergonhado disso, mas falando com toda a liberdade quando se tratava de palavras de proveito. E dizia que é preciso dar todo o tempo à alma antes que ao corpo, e conceder ao corpo, por necessidade, um pouco de tempo, mas dedicar todo o resto à alma e buscar o proveito dela; para que ela não seja arrastada pelos prazeres do corpo, mas antes o corpo seja reduzido por ela à servidão. Pois é isto o que diz o Salvador: “Não vos inquieteis com a vossa alma, pelo que haveis de comer, nem com o corpo, pelo que haveis de vestir. E vós não busqueis o que haveis de comer ou o que haveis de beber, e não andeis ansiosos; pois todas estas coisas as procuram as nações do mundo. Mas o vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai, porém, primeiro o seu reino, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”

46 Depois disso, sobreveio à Igreja a perseguição que então houve sob Maximino; e, sendo os santos mártires levados a Alexandria, também ele os seguiu, deixando o mosteiro e dizendo: “Vamos também nós, para combater, se formos chamados, ou para contemplar os que combatem.” Tinha desejo do martírio; mas, não querendo entregar-se a si mesmo, servia os confessores nas minas e nas prisões. Grande era o seu zelo no tribunal: ungir de ânimo os que eram chamados, quando estavam no combate, e, quando davam testemunho, recebê-los e acompanhá-los até a consumação. O juiz, vendo a intrepidez dele e dos que estavam com ele, e o seu zelo nisso, ordenou que nenhum dos monges aparecesse no tribunal, nem de modo algum permanecesse na cidade. Todos os outros, pois, acharam por bem esconder-se naquele dia; mas Antão fez tanto caso disso que até lavou o manto, e no dia seguinte se pôs na frente, em lugar alto, e apareceu resplandecente aos olhos do governador. Estando todos admirados disso, e vendo-o o governador, que passava com o seu séquito, ele se mantinha de pé, impávido, mostrando a prontidão de nós, cristãos; pois também ele desejava o martírio, como eu disse antes. Parecia, pois, entristecido por não ter sido martirizado; mas o Senhor o guardava para proveito nosso e dos outros, a fim de que, também na ascese que ele aprendera das Escrituras, se tornasse mestre de muitos. Pois muitos, só de ver o seu modo de vida, se esforçavam por tornar-se imitadores da sua conduta. De novo, pois, servia como de costume os confessores e, como se estivesse preso com eles, se afadigava em servi-los.

47 Quando, por fim, cessou a perseguição, e o bem-aventurado bispo Pedro sofreu o martírio, partiu e retirou-se de novo ao mosteiro; e ali era todos os dias mártir na consciência e lutava nas lides da fé. Pois praticava uma ascese grande e ainda mais rigorosa: jejuava sempre, e a sua veste era, por dentro, de pelo e, por cima, de pele, e assim a conservou até a morte; nunca banhou o corpo com água para tirar a sujeira, nem sequer lavou os pés, nem consentiu em metê-los na água sem necessidade; e ninguém jamais o viu despido, nem ninguém viu o corpo de Antão nu, a não ser quando, morto, o sepultaram.

48 Estando ele, pois, retirado, e tendo resolvido passar um tempo sem sair nem receber ninguém, um certo Martiniano, comandante militar, veio importunar Antão; pois tinha a filha atormentada por um demônio. Como ficasse muito tempo batendo à porta e pedindo que ele saísse e orasse a Deus pela menina, Antão não consentiu em abrir, mas, debruçando-se do alto, disse: “Homem, por que clamas tanto por mim? Também eu sou homem como tu. Se crês em Cristo, a quem sirvo, vai, ora a Deus conforme crês, e assim acontecerá.” Ele, crendo logo e invocando a Cristo, partiu, e teve a filha purificada do demônio. Muitas outras coisas fez por meio dele o Senhor, que diz: “Pedi, e vos será dado.” Pois muitíssimos dos que sofriam, sem que ele lhes abrisse a porta, apenas dormiam do lado de fora do mosteiro e, crendo e orando com sinceridade, eram purificados.

49 Mas, vendo-se importunado por muitos e impedido de retirar-se segundo o seu propósito, como queria, receou que, pelas coisas que o Senhor fazia por meio dele, ou ele mesmo se ensoberbecesse, ou algum outro fizesse dele um juízo acima do que ele era; refletiu e resolveu subir à Alta Tebaida, para junto dos que não o conheciam. E, tendo recebido pães dos irmãos, sentou-se à beira do rio, à espera de que passasse algum barco, para embarcar e subir com os que nele fossem. Enquanto pensava nisso, veio-lhe do alto uma voz: “Antão, aonde vais, e por quê?” Ele não se perturbou; mas, como quem estava acostumado a ser chamado assim muitas vezes, escutou e respondeu: “Porque as multidões não me deixam ter sossego, por isso quero subir à Alta Tebaida, por causa dos muitos incômodos que tenho aqui, e sobretudo porque me pedem coisas acima das minhas forças.” A voz lhe disse: “Ainda que subas à Tebaida, ou que, como pensas, desças aos Bucólios, terás de suportar fadiga maior, em dobro. Mas, se queres de fato ter sossego, sobe agora ao interior do deserto.” E, como Antão dissesse: “E quem me mostrará o caminho? Pois não o conheço”, logo ela lhe mostrou uns sarracenos que estavam para fazer aquele caminho. Aproximando-se, pois, e chegando-se a eles, Antão pediu-lhes que o deixassem ir com eles para o deserto. Eles, como por ordem da Providência, o receberam de bom grado; e, tendo caminhado com eles três dias e três noites, chegou a uma montanha muito alta. Ao pé da montanha havia uma água limpidíssima, doce e muito fresca; em volta, uma planície e umas poucas palmeiras abandonadas.

50 Antão, pois, como movido por Deus, amou o lugar; pois era esse o que lhe indicara aquele que lhe falara à beira do rio. No começo, recebendo pães dos companheiros de viagem, ficou sozinho na montanha, sem que ninguém mais estivesse com ele; pois, reconhecendo-o como casa sua, desde então ficou morando naquele lugar. Os próprios sarracenos, vendo a prontidão de Antão, passavam de propósito por aquele caminho e, com alegria, lhe traziam pães; e ele tinha então também o pequeno e pobre alívio das palmeiras. Depois, quando os irmãos souberam do lugar, como filhos que se lembram do pai, tinham o cuidado de lhe mandar provisões; mas Antão, vendo que, por causa do pão, alguns se fatigavam para chegar ali e padeciam cansaço, quis poupar também nisso os monges; tomou conselho consigo mesmo e pediu a alguns dos que vinham vê-lo que lhe trouxessem uma enxada de dois dentes, um machado e um pouco de trigo. Quando lhe trouxeram essas coisas, percorreu a terra em volta da montanha e, achando um pedacinho de chão apropriado, lavrou-o; e, tendo água em abundância para regá-lo, semeou. E, fazendo isto todos os anos, tirava dali o seu pão, alegre por não ser, com isso, molesto a ninguém e por se guardar em tudo de ser pesado. Mas, depois, vendo que de novo vinham alguns, cultivou também umas poucas hortaliças, para que quem viesse tivesse algum pequeno alívio do cansaço daquele caminho penoso. No começo, os animais do deserto, vindo por causa da água, muitas vezes estragavam a sua semeadura e a sua lavoura; mas ele, com bom humor, apanhou um dos animais e disse a todos: “Por que me fazeis dano, se eu não vos faço dano nenhum? Ide-vos, e, em nome do Senhor, não vos aproximeis mais do que está aqui.” E desde então, como se tivessem medo da ordem, não se aproximaram mais do lugar.

51 Ele, pois, estava só na montanha interior, entregue às orações e à ascese; e os irmãos que o serviam pediram-lhe licença para vir de tantos em tantos meses trazer-lhe azeitonas, legumes e azeite; pois já era velho. Quantas lutas sustentou vivendo ali, segundo o que está escrito, não contra o sangue e a carne, mas contra os demônios adversários, nós o soubemos pelos que iam visitá-lo. Pois também ali ouviam tumultos e muitas vozes, e estrondos como de armas; viam a montanha, de noite, encher-se de feras; e o viam também a ele como que lutando contra seres visíveis e orando contra eles. Aos que vinham vê-lo ele os animava, enquanto ele mesmo combatia de joelhos, orando ao Senhor. E era verdadeiramente digno de admiração que, estando só em tal deserto, nem se aterrava com os demônios que o assaltavam, nem, sendo tantos ali os animais, quadrúpedes e répteis, temia a ferocidade deles; mas verdadeiramente, segundo o que está escrito, confiava no Senhor como o monte Sião, com a mente inabalável e sem agitação; de sorte que, antes, os demônios fugiam dele, e as feras selvagens, como está escrito, estavam em paz com ele.

52 O diabo, como canta Davi, espiava Antão e rangia os dentes contra ele; mas Antão era consolado pelo Salvador e permanecia ileso da astúcia dele e das suas várias artimanhas. Estando ele, pois, em vigília de noite, o diabo lançou contra ele feras; e quase todas as hienas daquele deserto, saindo das tocas, o cercaram, e ele estava no meio delas. E, abrindo cada uma a boca e ameaçando mordê-lo, ele, compreendendo o artifício do inimigo, disse a todas elas: “Se recebestes poder contra mim, estou pronto a ser devorado por vós; mas, se fostes mandadas pelos demônios, não vos demoreis, mas retirai-vos, porque sou servo de Cristo.” Dizendo Antão isto, elas fugiram, como perseguidas pelo açoite da palavra.

53 Depois, passados poucos dias, enquanto trabalhava (pois tinha também o cuidado de se afadigar), alguém, parado à porta, puxou o cordel do trabalho; pois ele cosia cestos e os dava aos que vinham vê-lo, em troca do que lhe traziam. Levantando-se, viu uma fera, semelhante a um homem até as coxas, mas com as pernas e os pés como os de um asno. Antão apenas se persignou e disse: “Sou servo de Cristo; se foste mandado contra mim, aqui estou.” E a fera, com os seus demônios, fugiu de tal maneira que, com a rapidez, caiu e morreu. A morte da fera foi a queda dos demônios. Pois tudo se esforçavam por fazer, para tirá-lo do deserto, e não conseguiram.

54 Certa vez, como os monges lhe pedissem que descesse até eles e, depois de tanto tempo, os visitasse, a eles e aos seus lugares, pôs-se a caminho com os monges que tinham vindo ao seu encontro; e um camelo lhes levava os pães e a água. Pois todo aquele deserto é sem água, e não há nele água potável em parte alguma, senão naquela montanha somente, onde a tinham tirado e onde está o seu mosteiro. Faltando, pois, a água no caminho, e fazendo um calor fortíssimo, todos estavam a ponto de perecer. Tendo andado por toda a parte sem achar água, já não conseguiam sequer caminhar, mas jaziam por terra; e soltaram o camelo, desesperados de si mesmos. O ancião, vendo que todos estavam em perigo, muito aflito e gemendo, afastou-se um pouco deles e, dobrando os joelhos e estendendo as mãos, orou; e logo o Senhor fez brotar água no lugar onde ele estava orando; e assim todos beberam e tomaram alento; e, enchendo os odres, procuraram o camelo e o encontraram: pois acontecera que a corda se enrolara numa pedra, e assim ele ficara preso. Trazendo-o, pois, e dando-lhe de beber, puseram-lhe em cima os odres e fizeram o caminho sem dano. Quando chegou aos mosteiros exteriores, todos o abraçavam, olhando-o como a um pai. E ele, como quem traz provisões da montanha, regalava-os com as suas palavras e lhes repartia o proveito. E de novo havia alegria nas montanhas, e zelo pelo progresso, e consolação pela fé de uns e de outros. Alegrava-se também ele, vendo o fervor dos monges e a irmã, envelhecida na virgindade e também ela guia de outras virgens.

55 Passados alguns dias, entrou de novo na montanha. E desde então muitos iam até ele; e outros, que sofriam, ousaram também ir. A todos os monges que iam vê-lo dava constantemente este preceito: crer no Senhor e amá-lo; guardar-se dos pensamentos impuros e dos prazeres da carne e, como está escrito nos Provérbios, não se deixar enganar pela fartura do ventre; fugir da vanglória e orar sem cessar; salmodiar antes do sono e depois do sono; guardar de cor os preceitos das Escrituras e lembrar-se das obras dos santos, para que a alma, trazendo à memória os mandamentos, se regrasse pelo zelo deles. Sobretudo aconselhava meditar sem cessar a palavra do Apóstolo: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira”; e entender que isto foi dito de todo mandamento em geral, para que o sol não se ponha não só sobre a ira, mas sobre nenhum outro pecado nosso; pois é bom e necessário que nem o sol nos condene por alguma maldade do dia, nem a lua por algum pecado da noite, ou mesmo por algum pensamento. Para que isto, pois, se conserve em nós, é bom ouvir o Apóstolo e guardar o que diz: “Examinai-vos a vós mesmos e provai-vos a vós mesmos.” Cada um, pois, faça todos os dias consigo a conta das ações do dia e da noite; e, se pecou, deixe de pecar; se não pecou, não se glorie, mas persevere no bem e não se descuide, nem condene o próximo, nem se justifique a si mesmo, como disse o bem-aventurado apóstolo Paulo, até que venha o Senhor, que perscruta as coisas ocultas. Pois muitas vezes nem nós mesmos percebemos o que fazemos; nós não o sabemos, mas o Senhor compreende tudo. Deixando-lhe, pois, o juízo, compadeçamo-nos uns dos outros e levemos as cargas uns dos outros; mas examinemo-nos a nós mesmos e esforcemo-nos por suprir o que nos falta. E seja também esta a vigilância que nos guarde de pecar: cada um de nós anote e escreva as ações e os movimentos da alma, como quem os há de contar aos outros; e tende confiança de que, envergonhados de que se saibam, havemos de deixar de pecar e até de pensar em algo mau. Pois quem, pecando, quer ser visto? Ou quem, tendo pecado, não prefere mentir, querendo ficar escondido? Assim como, vendo-nos uns aos outros, não fornicaríamos, assim também, se escrevermos os pensamentos como quem os há de contar uns aos outros, mais nos guardaremos dos pensamentos impuros, envergonhados de que se saibam. Seja-nos, pois, o escrito em lugar dos olhos dos companheiros de ascese, para que, corando de escrever como coraríamos de ser vistos, nem sequer pensemos o que é mau. Formando-nos assim, poderemos reduzir o corpo à servidão, agradar ao Senhor e calcar aos pés as artimanhas do inimigo.

56 Isto recomendava aos que vinham ter com ele. Com os que sofriam, sofria junto e orava junto; e muitas vezes e em muitas coisas o Senhor o ouviu. E nem se gloriava quando era ouvido, nem murmurava quando não o era; mas sempre ele dava graças ao Senhor e exortava os que sofriam a ter paciência e a saber que a cura não é dele, nem de homem algum, mas só de Deus, que a faz quando quer e a quem quer. Os que sofriam, pois, recebiam também as palavras do ancião como uma cura, aprendendo também eles a não desanimar, mas antes a ter paciência; e os que eram curados aprendiam a não dar graças a Antão, mas só a Deus.

57 Um certo Frontão, que era do Palácio e tinha uma doença terrível — pois roía a própria língua e estava em risco de perder os olhos —, foi à montanha e pediu a Antão que orasse por ele. Antão orou e disse a Frontão: “Vai, e serás curado.” Mas, como ele insistisse e ficasse ali dentro alguns dias, Antão continuava a dizer: “Ficando aqui, não poderás ser curado. Sai, e, quando chegares ao Egito, verás o sinal que se fará em ti.” Ele creu e saiu; e, mal avistou o Egito, cessou a doença, e o homem ficou são, segundo a palavra de Antão, que este, orando, recebera do Salvador.

58 Uma virgem de Busíris de Trípoli tinha uma doença terrível e muito repugnante. Pois as lágrimas, o muco e o humor que lhe escorria dos ouvidos, caindo no chão, logo se tornavam vermes; tinha, além disso, o corpo paralisado, e os olhos fora do natural. Os pais dela, sabendo que uns monges iam ter com Antão, e crendo no Senhor que curou a mulher do fluxo de sangue, pediram para fazer o caminho com eles, levando a filha. Eles consentiram; e os pais, com a menina, ficaram fora da montanha, junto de Pafnúcio, confessor e monge; os monges entraram. E, mal quiseram falar da virgem, ele se adiantou e contou a doença da menina e como ela fizera o caminho com eles. Depois, pedindo eles que se desse licença também àqueles para entrar, isto ele não permitiu, mas disse: “Ide, e a encontrareis curada, se não tiver morrido. Pois este feito não é meu, para que ela venha a mim, pobre homem; a cura é do Salvador, que em todo lugar usa de misericórdia com os que o invocam. Também a ela, pois, o Senhor atendeu, porque orou, e a mim a sua bondade revelou que ele curará a doença da menina estando ela lá.” Aconteceu, de fato, o milagre; e, saindo, encontraram os pais alegres e a menina já sã.

59 Iam uma vez ter com ele dois irmãos, e faltou-lhes a água no caminho; um deles morreu, e o outro estava para morrer: já sem forças para caminhar, jazia também ele por terra, esperando a morte. Antão, sentado na montanha, chamou dois monges (pois acontecia estarem ali) e apressou-os, dizendo: “Tomai uma bilha de água e correi pelo caminho do Egito; pois, de dois que vinham, um acaba de morrer, e o outro morrerá, se não vos apressardes. Isto me foi revelado agora, enquanto orava.” Os monges foram, pois, e encontraram um jazendo morto, e o sepultaram; o outro, reanimaram-no com a água e o levaram ao ancião; pois a distância era de um dia de caminho. Se alguém perguntar por que não falou antes que o outro morresse, não pergunta bem ao dizer isso. Pois a sentença da morte não era de Antão, mas de Deus, que decidiu a respeito daquele e revelou a respeito deste. Só isto era maravilhoso em Antão: que, sentado na montanha, tinha o coração vigilante, e o Senhor lhe mostrava as coisas distantes.

60 Pois outra vez, sentado na montanha, levantou os olhos e viu alguém que era levado ao alto pelos ares, e grande alegria entre os que vinham ao seu encontro. Admirado, e chamando bem-aventurado aquele coro, orava para saber o que seria aquilo. E logo lhe veio uma voz: que aquela era a alma de Amon, o monge de Nítria. Este perseverara na ascese até a velhice. E a distância de Nítria até a montanha onde Antão estava é de treze dias. Os que estavam com Antão, vendo o ancião admirado, pediram para saber; e ouviram que Amon acabava de morrer. Pois era conhecido deles, porque vinha ali com bastante frequência, e porque muitos sinais se tinham feito também por meio dele; e um deles é este. Certa vez, tendo ele necessidade de atravessar o rio chamado Lico (e era então a época da cheia), pediu a Teodoro, que estava com ele, que se afastasse para longe, para que não se vissem nus um ao outro ao atravessar a água a nado. Depois que Teodoro se afastou, envergonhava-se ainda de ver-se nu a si mesmo. Enquanto, pois, se envergonhava e refletia, de repente foi transportado para a outra margem. Teodoro, que também era homem piedoso, aproximando-se e vendo que ele chegara primeiro sem se molhar de modo algum, pediu para saber como fizera a travessia. E, vendo que ele não queria dizer, insistiu, agarrando-lhe os pés, que não o soltaria antes de saber dele. Vendo, pois, Amon a teimosia de Teodoro, sobretudo pela palavra que dissera, exigiu-lhe por sua vez que não o dissesse a ninguém até a sua morte; e assim lhe contou que fora carregado e posto na outra margem; que não andara sobre a água, nem isto é de modo algum possível aos homens, senão somente ao Senhor e àqueles a quem ele o permite, como fez com o grande apóstolo Pedro. Teodoro, pois, contou isto depois da morte de Amon. E os monges a quem Antão falara da morte de Amon anotaram o dia; e, quando os irmãos subiram de Nítria trinta dias depois, perguntaram e souberam que Amon adormecera naquele dia e naquela hora em que o ancião vira a sua alma ser levada ao alto. E tanto estes como aqueles admiravam muito a pureza da alma de Antão: como soubera no mesmo instante o que acontecia a treze dias de distância, e vira a alma ser levada ao alto.

61 Também o conde Arquelau, encontrando-o certa vez na montanha exterior, pediu-lhe somente que orasse por Policrácia, a admirável virgem portadora de Cristo, de Laodiceia. Pois ela sofria terrivelmente do estômago e do lado, por causa da ascese excessiva, e estava toda debilitada do corpo. Antão orou; e o conde anotou o dia em que se fez a oração; e, indo a Laodiceia, encontrou a virgem curada. Perguntando quando e em que dia se livrara da doença, tirou o papel em que escrevera o tempo da oração; e, ouvida a resposta, mostrou logo também ele o que estava escrito no papel; e todos se admiraram, reconhecendo que o Senhor a livrara dos sofrimentos no momento em que Antão estava orando e invocando por ela a bondade do Salvador.

62 Também a respeito dos que vinham vê-lo, muitas vezes predizia, dias antes, e às vezes um mês antes, a causa por que vinham: uns vinham só para vê-lo, outros por doença, e outros atormentados por demônios. E nenhum tinha por incômodo nem por perda o cansaço do caminho; pois cada um voltava sentindo o proveito. Dizendo e vendo tais coisas, pedia que ninguém o admirasse por isso, mas que admirassem antes o Senhor, porque a nós, que somos homens, concedeu conhecê-lo na medida das nossas forças.

63 Tendo descido outra vez aos mosteiros exteriores, pediram-lhe que entrasse num barco e orasse com uns monges; e só ele percebeu um fedor terrível e muito acre. Os que estavam no barco diziam que havia ali peixe, fresco e salgado, e que o cheiro vinha dele; mas ele dizia que o fedor era outro. Estando ele ainda falando, um jovem que tinha um demônio, e que entrara antes e se escondera no barco, gritou de repente. Repreendido em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, o demônio saiu; e o homem ficou são; e todos conheceram que o fedor era do demônio.

64 Veio também ter com ele outro, um dos notáveis, que tinha um demônio. E esse demônio era tão terrível que o possesso não sabia que estava indo a Antão; e chegava a comer as excreções do próprio corpo. Os que o levaram rogavam a Antão que orasse por ele; e Antão, compadecido do jovem, orou e passou com ele a noite inteira em vigília. E o jovem, de repente, pela madrugada, investiu contra Antão e deu-lhe um empurrão; e, como os que tinham vindo com ele se indignassem, Antão disse: “Não vos irriteis com o jovem; pois não é ele, mas o demônio que está nele; repreendido e mandado para lugares sem água, enfureceu-se e fez isto. Glorificai, pois, o Senhor; pois o investir ele assim contra mim foi para vós o sinal da saída do demônio.” Ditas estas palavras por Antão, logo o jovem ficou são; e, voltando enfim a si, reconheceu onde estava, e abraçava o ancião, dando graças a Deus.

65 Muitíssimos monges contaram, concordes e unânimes, muitas outras coisas semelhantes que se fizeram por meio dele. Mas estas não são tão admiráveis como outras, que parecem ainda mais. Certa vez, estando para comer, levantou-se para orar perto da hora nona e sentiu-se arrebatado em espírito; e — coisa estranha — estando de pé, via-se a si mesmo como que fora de si, e como que conduzido ao ar por alguns; depois, uns seres ferozes e terríveis, de pé no ar, querendo impedi-lo de passar. Como os que o conduziam lutassem contra eles, estes exigiam contas, para ver se ele não lhes era devedor. E, querendo eles fazer as contas desde o seu nascimento, os que conduziam Antão os impediram, dizendo-lhes: “O que é desde o seu nascimento, o Senhor o apagou; mas, do tempo em que se fez monge e fez a sua promessa a Deus, disso se podem pedir contas.” Então, acusando eles, mas sem conseguirem provar nada, o caminho ficou-lhe livre e desimpedido; e logo se viu como que voltando e de pé junto de si mesmo, e de novo era inteiramente Antão. Então, esquecido de comer, passou o resto do dia e a noite inteira gemendo e orando. Pois se admirava ao ver contra quantos é a nossa luta e por quantos trabalhos se há de atravessar o ar; e lembrava-se de que é isto o que dizia o Apóstolo: “Segundo o príncipe do poder do ar.” Pois é nisto que o inimigo tem poder: em combater os que passam e tentar impedi-los. Por isso exortava ele sobretudo: “Tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau”, a fim de que o inimigo, não tendo nada de mau a dizer de nós, fique envergonhado. E nós, sabendo isto, lembremo-nos do Apóstolo, que diz: “Se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe.” Mas Paulo foi arrebatado até o terceiro céu e, tendo ouvido palavras inefáveis, desceu; ao passo que Antão se viu chegar até o ar e lutar até aparecer livre.

66 Tinha ainda este outro carisma. Quando estava sentado sozinho na montanha, se alguma vez, buscando consigo alguma coisa, ficava em dúvida, isso lhe era revelado pela Providência, enquanto orava. E o bem-aventurado tornara-se, segundo o que está escrito, ensinado por Deus. Depois disso, tendo tido certa vez uma conversa com alguns que tinham vindo vê-lo, sobre a condição da alma e o lugar que ela terá depois desta vida, na noite seguinte alguém o chama do alto, dizendo: “Antão, levanta-te, sai e olha.” Saiu, pois (porque sabia a quem deve obedecer), e, levantando os olhos, viu alguém enorme, disforme e medonho, de pé, chegando até as nuvens, e uns que subiam como que alados; e aquele estendia as mãos; e uns eram detidos por ele, e outros voavam por cima dele e, tendo passado, subiam enfim livres de cuidado. Por estes rangia os dentes aquele gigante; mas pelos que caíam alegrava-se. E logo veio a Antão uma voz: “Entende o que vês.” E, abrindo-se o seu entendimento, compreendeu que era a passagem das almas, e que o gigante de pé era o inimigo, que tem inveja dos fiéis; que agarra e impede de passar os que lhe estão sujeitos, mas não pode agarrar os que não lhe obedeceram, porque lhe passam por cima. Tendo visto isto, e como que trazido de novo à memória, esforçava-se ainda mais por avançar cada dia para o que está adiante. Estas coisas ele não as contava de bom grado; mas, quando se demorava nas orações e se admirava consigo mesmo, os que estavam com ele o interrogavam e o apertavam, e ele era forçado a falar, como pai que não pode esconder nada aos filhos; e também porque julgava que a sua consciência estava pura e que a eles a narração servia de proveito, pois aprendiam que o fruto da ascese é bom e que as visões muitas vezes são consolação dos trabalhos.

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