67–88
A fé e a sabedoria de Antão
67 Além disso, era de índole paciente e de alma humilde. Sendo assim, honrava extraordinariamente a regra da Igreja e queria que todo clérigo tivesse precedência sobre ele na honra. Não se envergonhava de inclinar a cabeça diante dos bispos e dos presbíteros; e, se algum diácono vinha ter com ele em busca de proveito, conversava com ele sobre o que era de proveito, mas cedia-lhe a oração, não se envergonhando de aprender também ele. Pois muitas vezes fazia perguntas e pedia para ouvir os que estavam com ele; e confessava tirar proveito, se alguém dizia algo útil. Além disso, o seu rosto tinha uma graça grande e extraordinária. E tinha também este carisma, recebido do Salvador: se estava no meio da multidão dos monges e alguém, que não o conhecia antes, queria vê-lo, logo que se aproximava passava pelos outros e corria para ele, como atraído pelo seu olhar. Não se distinguia dos outros pela altura nem pela largura, mas pela serenidade dos costumes e pela pureza da alma. Pois, estando a alma sem tumulto, tinha também imperturbáveis os sentidos exteriores; de modo que, pela alegria da alma, tinha também alegre o rosto, e pelos movimentos do corpo se percebia e entendia o estado da alma, segundo o que está escrito: “Quando o coração se alegra, o rosto floresce; mas, quando está em tristezas, fica sombrio.” Assim Jacó percebeu que Labão maquinava contra ele, e disse às mulheres: “O rosto de vosso pai não é como ontem e anteontem.” Assim Samuel reconheceu Davi; pois tinha os olhos alegres e os dentes brancos como leite. Assim também Antão era reconhecido: nunca se perturbava, pois a sua alma estava em calmaria; nunca ficava sombrio, pois a sua mente estava alegre.
68 Também na fé era muito admirável e piedoso. Pois nunca teve comunhão com os melecianos, os cismáticos, conhecendo a malícia e a apostasia deles desde o princípio; nem teve conversa amiga com os maniqueus ou com quaisquer outros hereges, a não ser apenas para admoestá-los a converter-se à piedade; julgando e ensinando que a amizade e a conversa com eles são dano e perdição da alma. Assim também abominava a heresia dos arianos, e mandava a todos que não se aproximassem deles nem tivessem a sua falsa fé. Certa vez, pois, tendo ido ter com ele alguns dos ariomaníacos, interrogou-os e, sabendo que eram ímpios, expulsou-os da montanha, dizendo que as palavras deles eram piores que veneno de serpentes.
69 E, certa vez, tendo os arianos espalhado a mentira de que ele pensava como eles, indignou-se e irou-se contra eles. Depois, chamado pelos bispos e por todos os irmãos, desceu da montanha; e, entrando em Alexandria, repudiou publicamente os arianos, dizendo que esta era a última das heresias e precursora do Anticristo. E ensinava ao povo que o Filho de Deus não é criatura, nem foi feito do nada, mas que é o Verbo e a Sabedoria eterna da substância do Pai. “Por isso é ímpio dizer: ‘Houve um tempo em que não era’; pois o Verbo sempre coexistia com o Pai. Portanto, não tenhais comunhão nenhuma com os impiíssimos arianos; pois não há nenhuma comunhão da luz com as trevas. Vós sois cristãos piedosos; mas eles, dizendo que o Filho de Deus, o Verbo que procede do Pai, é criatura, em nada diferem dos gentios, pois prestam culto à criatura em lugar de Deus, que a criou. Crede que a própria criação inteira se indigna contra eles, porque o Criador e Senhor do universo, em quem todas as coisas foram feitas, eles o contam entre as criaturas.”
70 Todo o povo, pois, se alegrava ao ouvir um homem como aquele anatematizar a heresia inimiga de Cristo; e todos os da cidade acorriam para ver Antão. Também os pagãos, e até os seus chamados sacerdotes, vinham à igreja, dizendo: “Pedimos para ver o homem de Deus”; pois todos o chamavam assim. E também ali o Senhor, por meio dele, purificou muitos de demônios e curou os que tinham o juízo transtornado. E muitos pagãos pediam ao menos tocar o ancião, crendo que receberiam proveito. De fato, tantos se fizeram cristãos naqueles poucos dias quantos se veriam num ano inteiro. Depois, como alguns julgassem que ele se incomodava com as multidões, e por isso afastassem dele a todos, ele, sem se perturbar, dizia que estes não eram mais numerosos do que os demônios com quem lutamos na montanha.
71 Quando ele partia, e nós o acompanhávamos, ao chegarmos à porta da cidade, uma mulher gritava atrás de nós: “Espera, homem de Deus! A minha filha é terrivelmente atormentada por um demônio. Espera, eu te peço, para que eu também não me ponha em perigo, correndo.” O ancião, ouvindo-a e rogado por nós, ficou de bom grado. Quando a mulher se aproximou, a menina foi lançada por terra; mas, tendo Antão orado e invocado o nome de Cristo, a menina levantou-se sã, tendo saído o demônio impuro. A mãe bendizia a Deus, e todos davam graças. E ele também se alegrava de partir para a montanha, como para a sua própria casa.
72 Era também muito sensato; e o admirável é que, sem ter aprendido as letras, era homem sagaz e inteligente. Certa vez, pois, vieram ter com ele dois filósofos gregos, julgando poder pôr Antão à prova; ele estava na montanha exterior. Compreendendo pelo rosto que espécie de homens eram, saiu ao encontro deles e disse por meio de um intérprete: “Por que vos destes tanto incômodo, filósofos, por um homem tolo?” Respondendo eles que não era tolo, mas muito sensato, disse-lhes: “Se viestes a um tolo, é inútil o vosso cansaço; mas, se me julgais sensato, fazei-vos como eu; pois é preciso imitar o que é bom. Se eu tivesse ido até vós, eu vos teria imitado; mas, se vós viestes a mim, fazei-vos como eu: pois eu sou cristão.” Eles se retiraram admirados; pois viam também os demônios temerem Antão.
73 Outra vez, tendo vindo ao seu encontro outros semelhantes, na montanha exterior, e pensando zombar dele porque não aprendera as letras, Antão lhes disse: “E vós, que dizeis? Que vem primeiro, a mente ou as letras? E qual é causa de qual: a mente das letras, ou as letras da mente?” Respondendo eles que a mente vem primeiro e é a inventora das letras, disse Antão: “Logo, quem tem a mente sã não precisa das letras.” Isto deixou atônitos tanto os presentes como eles mesmos. Foram-se, pois, admirados de verem tanta inteligência num homem iletrado; pois não tinha os modos rudes de quem se criou na montanha e lá envelheceu, mas era amável e cortês. E a sua palavra era temperada com o sal divino, de sorte que ninguém lhe tinha inveja, mas antes todos os que vinham vê-lo se alegravam com ele.
74 Depois disso, vieram ainda outros, dos que entre os gregos passavam por sábios, e lhe pediam razão da nossa fé em Cristo; e tentavam argumentar contra a pregação da cruz divina, querendo zombar. Antão, depois de se deter um pouco e de se compadecer primeiro da ignorância deles, disse por meio de um intérprete, que traduzia bem as suas palavras: “Que é mais belo: confessar uma cruz, ou atribuir adultérios e corrupção de meninos aos que entre vós se chamam deuses? Pois o que nós dizemos é prova de coragem e sinal de desprezo da morte; o que vós dizeis são paixões de devassidão. Depois, que é melhor: dizer que o Verbo de Deus não mudou, mas, permanecendo o mesmo, tomou um corpo humano para a salvação e o benefício dos homens, a fim de que, tendo participado do nascimento humano, fizesse os homens participar da natureza divina e intelectual; ou rebaixar a Divindade à semelhança dos seres irracionais e, por isso, adorar quadrúpedes, répteis e imagens de homens? Pois é isto o que venerais vós, os sábios. E como ousais zombar de nós, que dizemos que Cristo se manifestou como homem, quando vós, separando a alma do céu, dizeis que ela se extraviou e caiu da abóbada dos céus num corpo? E oxalá fosse só num corpo humano, e não passasse e caísse em quadrúpedes e répteis! A nossa fé diz que a vinda de Cristo foi para a salvação dos homens; mas vós errais, porque discorreis sobre uma alma não gerada. Nós pensamos no poder e no amor da Providência pelos homens, pois também isto não era impossível a Deus; mas vós, dizendo que a alma é imagem do Intelecto, atribuís-lhe quedas e contais a fábula de que é mutável; e por fim, por causa da alma, fazeis mutável também o próprio Intelecto. Pois qual for a imagem, tal há de ser necessariamente aquele de quem ela é imagem. E, quando pensais tais coisas do Intelecto, considerai que blasfemais também contra o próprio Pai do Intelecto.
75 “E, quanto à cruz, que diríeis ser melhor: quando os maus tramam uma cilada, suportar a cruz e não se acovardar diante da morte, venha ela do modo que vier; ou contar fábulas das andanças de Osíris e de Ísis, das ciladas de Tifão, da fuga de Cronos, de filhos devorados e de parricídios? Pois é esta a vossa sabedoria. E como, zombando da cruz, não admirais a ressurreição? Pois os que disseram uma coisa escreveram também a outra. Ou por que, lembrando a cruz, vos calais sobre os mortos que ressuscitaram, os cegos que recobraram a vista, os paralíticos que foram curados, os leprosos que foram purificados, o caminhar sobre o mar e os outros sinais e prodígios, que mostram que Cristo já não é um homem, mas Deus? Parece-me que sois muito injustos convosco mesmos e que não lestes com sinceridade as nossas Escrituras. Mas lede-as, e vereis que as obras de Cristo demonstram que ele é Deus, que veio à terra para a salvação dos homens.
76 “Dizei-nos também vós as vossas coisas. Que poderíeis dizer dos seres irracionais, senão irracionalidade e ferocidade? E se, como ouço dizer, quiserdes alegar que entre vós estas coisas se contam como mitos, e fazeis do rapto de Core uma alegoria da terra, da coxeadura de Hefesto, do fogo, de Hera, do ar, de Apolo, do sol, de Ártemis, da lua, e de Posêidon, do mar, nem por isso adorais o próprio Deus, mas prestais culto à criatura em lugar de Deus, que criou todas as coisas. Pois, se compusestes tais coisas porque a criação é bela, devíeis ter ficado só na admiração, e não divinizar as obras, para não dardes às criaturas a honra devida ao Criador. Do contrário, seria a hora de transferirdes também a honra do arquiteto para a casa que ele construiu, ou a do general para o soldado. Que respondeis, pois, a isto, para sabermos se a cruz tem algo digno de zombaria?”
77 Como eles hesitassem e se voltassem para um lado e para outro, Antão sorriu e disse de novo por meio do intérprete: “Estas coisas se refutam à primeira vista; mas, já que vós vos apoiais antes nos argumentos demonstrativos e, possuindo essa arte, quereis que também nós não prestemos culto a Deus sem demonstração por argumentos, dizei-me primeiro vós: as coisas, e sobretudo o conhecimento de Deus, como se conhecem com exatidão: pela demonstração dos argumentos ou pela eficácia da fé? E qual é mais antiga: a fé eficaz ou a demonstração por argumentos?” Respondendo eles que a fé eficaz é mais antiga e que é ela o conhecimento exato, disse Antão: “Dissestes bem; pois a fé nasce da disposição da alma, ao passo que a dialética provém da arte dos que a compõem. Portanto, para aqueles em quem há a eficácia da fé, a demonstração por argumentos não é necessária, e talvez seja até supérflua. Pois o que nós entendemos pela fé, vós tentais construí-lo por argumentos; e muitas vezes nem sequer conseguis exprimir o que nós entendemos; de sorte que a eficácia da fé é melhor e mais firme que os vossos silogismos sofísticos.
78 “Nós, pois, os cristãos, não temos o mistério na sabedoria das palavras dos gregos, mas no poder da fé, que nos é concedida por Deus mediante Jesus Cristo. E que esta palavra é verdadeira, vede-o: nós, sem ter aprendido as letras, cremos em Deus, reconhecendo pelas suas obras a sua providência sobre todas as coisas. E que a nossa fé é eficaz, vede-o: nós nos apoiamos na fé em Cristo, e vós em disputas sofísticas de palavras. Os fantasmas dos vossos ídolos se desfazem, ao passo que a nossa fé se estende por toda parte. Vós, com os vossos silogismos e sofismas, não fazeis ninguém passar do cristianismo ao paganismo; nós, ensinando a fé em Cristo, desnudamos a vossa superstição, e todos reconhecem que Cristo é Deus e Filho de Deus. Vós, com a vossa bela linguagem, não impedis o ensinamento de Cristo; nós, invocando o nome de Cristo crucificado, afugentamos todos os demônios, que vós temeis como deuses. E onde se faz o sinal da cruz, a magia perde a força e a feitiçaria não tem eficácia.
79 “Dizei, pois: onde estão agora os vossos oráculos? Onde os encantamentos dos egípcios? Onde as fantasmagorias dos magos? Quando foi que tudo isto cessou e perdeu a força, senão quando veio a cruz de Cristo? É ela, pois, digna de zombaria, ou antes as coisas que por ela foram abolidas e convencidas de fraqueza? Pois também isto é admirável: as vossas coisas nunca foram perseguidas, mas são até honradas pelos homens de cidade em cidade, ao passo que os de Cristo são perseguidos; e, no entanto, as nossas florescem e se multiplicam mais que as vossas. As vossas, louvadas e resguardadas, perecem; mas a fé e o ensinamento de Cristo, escarnecidos por vós e muitas vezes perseguidos pelos imperadores, encheram a terra inteira. Quando foi que o conhecimento de Deus brilhou assim? Ou quando apareceram assim a castidade e a virtude da virgindade? Ou quando se desprezou assim a morte, senão quando veio a cruz de Cristo? E disso ninguém duvida, vendo os mártires, que por Cristo desprezam a morte, vendo as virgens da Igreja, que por Cristo guardam os corpos puros e sem mancha.
80 “Estas provas bastam para mostrar que só a fé em Cristo é verdadeira para honrar a Deus. E eis que vós ainda não credes, buscando os silogismos que vêm dos argumentos. Nós não demonstramos, como disse o nosso mestre, com palavras persuasivas da sabedoria grega, mas persuadimos pela fé, que de modo evidente se antecipa à construção dos argumentos. Eis que estão aqui alguns que sofrem por causa dos demônios.” Tinham vindo ter com ele alguns atormentados por demônios; e ele, trazendo-os para o meio, disse: “Ou vós os purificais com os vossos silogismos e com a arte ou a magia que quiserdes, invocando os vossos ídolos; ou, se não podeis, deponde as armas contra nós, e vereis o poder da cruz de Cristo.” E, dizendo isto, invocou a Cristo e fez sobre os enfermos o sinal da cruz, duas e três vezes. E logo os homens se puseram de pé, inteiramente sãos, em seu juízo, e dando enfim graças ao Senhor. Os chamados filósofos admiravam-se e ficavam verdadeiramente atônitos com a inteligência do homem e com o sinal acontecido; mas Antão disse: “Por que vos admirais disto? Não somos nós que o fazemos, mas é Cristo, que faz estas coisas por meio dos que creem nele. Crede, pois, também vós, e vereis que o que há entre nós não é arte de palavras, mas a fé que opera pela caridade para com Cristo; e, se também vós a tiverdes, já não buscareis as demonstrações por argumentos, mas tereis por bastante a fé em Cristo.” Tais foram as palavras de Antão; e eles, admirando-se também disso, retiraram-se, abraçando-o e confessando que tinham tirado proveito dele.
81 A fama de Antão chegou até os imperadores. Pois, sabendo destas coisas, Constantino Augusto e os seus filhos Constâncio e Constante, também Augustos, escreviam-lhe como a um pai e pediam que ele lhes respondesse. Mas ele nem fazia grande caso das cartas, nem se alegrava com elas; era o mesmo que fora antes de os imperadores lhe escreverem. Quando lhe traziam as cartas, chamava os monges e dizia: “Não vos admireis se um imperador nos escreve, pois é um homem; admirai-vos antes de que Deus escreveu a lei para os homens e nos falou por meio do seu próprio Filho.” Não queria, pois, receber as cartas, dizendo que não sabia responder a tais coisas; mas, exortado pelos monges, porque os imperadores eram cristãos, e para que não se escandalizassem como se fossem desprezados, permitiu que fossem lidas. E respondeu, louvando-os por adorarem a Cristo e aconselhando-lhes o que era para a salvação: que não tivessem por grandes as coisas presentes, mas se lembrassem antes do juízo futuro e soubessem que só Cristo é rei verdadeiro e eterno. E pedia-lhes que fossem benignos e cuidassem da justiça e dos pobres. E eles, recebendo a resposta, alegravam-se. Assim era querido de todos, e todos desejavam tê-lo por pai.
82 Sendo, pois, conhecido como tal, e respondendo assim aos que o procuravam, voltava de novo à montanha interior. E mantinha a ascese costumada; e muitas vezes, quando estava sentado ou andando com os que vinham vê-lo, emudecia de assombro, como está escrito em Daniel. E, passado algum tempo, retomava a conversa com os irmãos que estavam com ele; e os que estavam com ele percebiam que ele tinha alguma visão. Pois muitas vezes, estando na montanha, via também as coisas que aconteciam no Egito; e as contou ao bispo Serapião, que estava lá dentro e via Antão absorto na visão. Certa vez, estando sentado a trabalhar, ficou como em êxtase, e gemia muito durante a visão. Depois, passada uma hora, voltou-se para os que estavam com ele, gemeu e, todo trêmulo, pôs-se a orar e, de joelhos, ficou assim muito tempo. E, levantando-se, o ancião chorava. Os que estavam com ele, pois, ficaram trêmulos e muito amedrontados, e pediam para saber dele; e tanto o importunaram que, forçado, falou. E, ainda assim, com um grande gemido, disse: “Ó filhos, melhor seria morrer antes que aconteça o que vi na visão.” E, pedindo eles de novo, disse chorando: “A ira está para cair sobre a Igreja, e ela está para ser entregue a homens semelhantes a animais sem razão. Pois vi a mesa da igreja, e em volta dela mulas de pé, cercando-a por todos os lados e dando coices no que estava dentro, como são os coices de animais que saltam desordenadamente. Vós decerto percebestes”, disse, “como eu gemia; pois ouvi uma voz que dizia: ‘O meu altar será abominado.’” Isto viu o ancião; e, dois anos depois, aconteceu a investida dos arianos que agora sofremos, e o saque das igrejas, quando, arrebatando com violência também os vasos sagrados, os faziam carregar por gentios; quando também obrigavam os gentios, tirados das suas oficinas, a reunir-se com eles; e, na presença deles, faziam sobre a mesa o que queriam. Então todos nós reconhecemos que aqueles coices das mulas prenunciavam a Antão o que agora os arianos fazem irracionalmente, como os animais. Mas, quando teve esta visão, consolou os que estavam com ele, dizendo: “Não desanimeis, filhos; pois, assim como o Senhor se irou, assim também curará de novo. E a Igreja recobrará depressa o seu ornamento e brilhará como de costume; e vereis os perseguidos restituídos, e a impiedade retirar-se de novo às suas tocas, e a fé piedosa falar abertamente, com toda a liberdade, em toda parte. Somente não vos manchéis com os arianos. Pois esta doutrina não é dos apóstolos, mas dos demônios e do pai deles, o diabo; e é antes estéril, irracional e de mente torta, como a irracionalidade das mulas.”
83 Assim foram as obras de Antão. E não devemos duvidar de que tantos milagres se tenham feito por meio de um homem. Pois é promessa do Salvador, que diz: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: ‘Muda-te daqui’, e ele se mudará; e nada vos será impossível.” E ainda: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, ele vos dará. Pedi, e recebereis.” E é ele mesmo quem diz aos discípulos e a todos os que creem nele: “Curai os enfermos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai.”
84 Antão, pois, não curava dando ordens, mas orando e invocando o nome de Cristo; de sorte que ficava claro a todos que não era ele quem fazia, mas o Senhor, que por meio de Antão mostrava o seu amor aos homens e curava os que sofriam. De Antão eram só a oração e a ascese, por causa da qual, sentado na montanha, se alegrava na contemplação das coisas divinas, mas se entristecia por ser importunado por muitos e arrastado à montanha exterior. Pois também todos os juízes pediam que ele descesse da montanha, porque não lhes era possível ir até lá, por causa dos litigantes que os acompanhavam. Pediam-lhe, contudo, que viesse, ao menos para o verem. Ele se esquivava e recusava essas viagens até eles; mas eles insistiam, e chegavam a mandar-lhe os réus sob escolta de soldados, para que, ao menos por causa deles, descesse. Constrangido, pois, e vendo-os lamentar-se, ia à montanha exterior; e, por outro lado, o seu incômodo não era sem fruto: pois a sua vinda era para muitos ocasião de proveito e de benefício. Aos juízes fazia bem, aconselhando-os a preferir a justiça acima de tudo, a temer a Deus e a saber que com o juízo com que julgam serão julgados. Mas, acima de tudo, amava a sua morada na montanha.
85 Certa vez, pois, sofrendo tal constrangimento da parte dos que precisavam dele, e tendo-lhe pedido o comandante, por muitos mensageiros, que descesse, veio e, depois de dizer umas poucas palavras para a salvação e em favor dos necessitados, tinha pressa de voltar. E, como o chamado duque lhe pedisse que se demorasse, disse que não podia deter-se com eles, e convenceu-o com uma comparação graciosa, dizendo: “Assim como os peixes, ficando muito tempo em terra seca, morrem, assim os monges, demorando-se convosco e passando o tempo entre vós, perdem as forças. É preciso, pois, que, como o peixe para o mar, assim nós nos apressemos para a montanha; não aconteça que, demorando-nos, nos esqueçamos das coisas de dentro.” O comandante, ouvindo dele isto e muitas outras coisas, admirou-se e dizia que este era verdadeiramente servo de Deus; pois de onde viria a um homem iletrado tal e tamanha inteligência, se não fosse amado por Deus?
86 Um certo comandante, chamado Balácio, perseguia cruelmente a nós, cristãos, por zelo pelos execráveis arianos. E, como era tão desumano que chegava a espancar virgens e a despir e açoitar monges, Antão mandou-lhe uma carta com este sentido: “Vejo a ira que vem sobre ti; deixa, pois, de perseguir os cristãos, para que a ira não te alcance; pois ela já está para vir sobre ti.” Balácio, rindo-se, atirou a carta ao chão, cuspindo nela, e insultou os que a tinham levado, mandando-lhes dizer a Antão isto: “Já que te preocupas com os monges, logo irei também atrás de ti.” E não se passaram cinco dias, e a ira o alcançou. Pois Balácio e Nestório, o prefeito do Egito, saíram até a primeira estação de Alexandria, a chamada de Quéreas, e iam ambos a cavalo; os cavalos eram do próprio Balácio, e os mais mansos de todos os que ele criava. Mas, antes que chegassem ao lugar, os cavalos começaram a brincar um com o outro, como costumam; e de repente o mais manso, em que montava Nestório, derrubou Balácio com uma mordida e lançou-se sobre ele; e despedaçou-lhe a coxa com os dentes de tal maneira que logo o levaram para a cidade, e em três dias morreu; e todos se admiraram de que se tivesse cumprido tão depressa o que Antão predissera.
87 Assim admoestava os mais cruéis; quanto aos outros que vinham ter com ele, de tal modo os aconselhava que logo se esqueciam dos seus litígios e chamavam bem-aventurados os que se retiram da vida do mundo. E defendia os injustiçados de tal modo que parecia ser ele, e não os outros, quem sofria. E de tal modo era capaz de ser útil a todos que muitos soldados e muitos dos que possuíam grandes bens depunham os fardos desta vida e se tornavam enfim monges. E, numa palavra, era como um médico dado por Deus ao Egito. Pois quem ia ter com ele triste e não voltava alegre? Quem chegava chorando pelos seus mortos e não deixava logo o luto? Quem vinha irado e não se mudava em amizade? Que pobre, desalentado, ia ter com ele e, ouvindo-o e vendo-o, não desprezava a riqueza e não se consolava da pobreza? Que monge, tendo esmorecido, vinha a ele e não se tornava mais forte? Que jovem, chegando à montanha e vendo Antão, não renunciava logo aos prazeres e não amava a castidade? Quem vinha a ele tentado por um demônio e não encontrava descanso? E quem vinha atormentado por pensamentos e não ficava com a mente serena?
88 Pois também isto era grande na ascese de Antão: que, tendo, como eu disse antes, o carisma do discernimento dos espíritos, conhecia os movimentos deles, e não ignorava para onde cada um deles dirigia o seu empenho e o seu ímpeto. E não só ele mesmo não era ludibriado por eles, mas também aos que eram atormentados por pensamentos, consolando-os, ensinava como poderiam desfazer as ciladas deles, expondo as fraquezas e as astúcias dos que neles atuam. Cada um, pois, descia como que ungido por ele, cheio de confiança contra os ardis do diabo e dos seus demônios. E quantas virgens que já tinham noivo, só de verem Antão de longe, permaneceram virgens para Cristo! Vinham também ter com ele de terras de fora; e também estes, tendo recebido proveito com todos os demais, voltavam como quem é despedido por um pai. De fato, depois que ele adormeceu, todos, como órfãos de pai, se consolam só com a lembrança dele, guardando juntamente os seus conselhos e as suas exortações.
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