Parte III
Chapitre XIX — Des vraies amitiés
Capítulo XIX — Das verdadeiras amizades
III.19 O Philothée, aimez un chacun d’un grand amour charitable, mais n’ayez point d’amitié qu’avec ceux qui peuvent communiquer avec vous de choses vertueuses ; et plus les vertus que vous mettrez en votre commerce seront exquises, plus votre amitié sera parfaite. Si vous communiquez ès sciences, votre amitié est certes fort louable ; plus encore si vous communiquez aux vertus, en la prudence, discrétion, force et justice. Mais si votre mutuelle et réciproque communication se fait de la charité, de la dévotion, de la perfection chrétienne, o Dieu ! que votre amitié sera précieuse ! Elle sera excellente parce qu’elle vient de Dieu, excellente parce qu’elle tend à Dieu, excellente parce que son lien c’est Dieu, excellente par ce qu’elle durera éternellement en Dieu. Oh ! qu’il fait bon aimer en terre comme l’on aime au ciel, et apprendre à s’entrechérir en ce monde comme nous ferons éternellement en l’autre !
III.19 Ó Filoteia, amai a cada um com um grande amor de caridade, mas não tenhais amizade senão com aqueles que podem comunicar convosco coisas virtuosas; e quanto mais seletas forem as virtudes que puserdes no vosso trato, mais perfeita será a vossa amizade. Se comunicais nas ciências, a vossa amizade é certamente muito louvável; mais ainda se comunicais nas virtudes, na prudência, na discrição, na fortaleza e na justiça. Mas, se a vossa comunicação mútua e recíproca se faz da caridade, da devoção, da perfeição cristã, ó Deus! como a vossa amizade será preciosa! Será excelente porque vem de Deus, excelente porque tende para Deus, excelente porque o seu laço é Deus, excelente porque durará eternamente em Deus. Oh! como é bom amar na terra como se ama no céu, e aprender a querer-se bem neste mundo como faremos eternamente no outro!
Je ne parle pas ici de l’amour simple de charité, car il doit être porté à tous les hommes ; mais je parle de l’amitié spirituelle, par laquelle deux ou trois ou plusieurs âmes se communiquent leur dévotion, leurs affections spirituelles, et se rendent un seul esprit entre elles. Qu’à bon droit peuvent chanter telles heureuses âmes : « Oh ! que voici combien il est bon et agréable que les frères habitent ensemble ! » Oui, car le baume délicieux de la dévotion distille de l’un des cœurs en l’autre par une continuelle participation, si qu’on peut dire que Dieu a répandu sur cette amitié sa bénédiction et la vie jusques aux siècles des siècles.
Não falo aqui do simples amor de caridade, porque ele deve ser dado a todos os homens; mas falo da amizade espiritual, pela qual duas, ou três, ou mais almas se comunicam a sua devoção, as suas afeições espirituais, e se tornam um só espírito entre si. Com quanta razão podem cantar tais almas felizes: «Oh! vede como é bom e agradável que os irmãos habitem juntos!» Sim, porque o bálsamo delicioso da devoção destila de um dos corações no outro por uma participação contínua, de modo que se pode dizer que Deus derramou sobre essa amizade a sua bênção e a vida pelos séculos dos séculos.
Il m’est avis que toutes les autres amitiés ne sont que des ombres au prix de celle-ci, et que leurs liens ne sont que des chaînes de verre ou de jayet, en comparaison de ce grand lien de la sainte dévotion qui est tout d’or.
Parece-me que todas as outras amizades não são mais que sombras em comparação com esta, e que os seus laços não são mais que correntes de vidro ou de azeviche, em comparação com este grande laço da santa devoção, que é todo de ouro.
Ne faites point d’amitié d’autre sorte, je veux dire des amitiés que vous faites ; car il ne faut pas ni quitter ni mépriser pour cela les amitiés que la nature et les précédents devoirs vous obligent de cultiver, des parents, des alliés, des bienfaiteurs, des voisins et autres ; je parle de celles que vous choisissez vous-même.
Não façais amizade de outra sorte; quero dizer, das amizades que vós fazeis; porque não é preciso, por isso, nem deixar nem desprezar as amizades que a natureza e os deveres anteriores vos obrigam a cultivar, as dos parentes, dos afins, dos benfeitores, dos vizinhos e outros; falo das que vós mesma escolheis.
Plusieurs vous diront peut-être qu’il ne faut avoir aucune sorte de particulière affection et amitié, d’autant que cela occupe le cœur, distrait l’esprit, engendre les envies : mais ils se trompent en leurs conseils ; car ils ont vu ès écrits de plusieurs saints et dévots auteurs que les amitiés particulières et affections extraordinaires nuisent infiniment aux religieux ; ils cuident que c’en soit de même du reste du monde, mais il y a bien à dire. Car attendu qu’en un monastère bien réglé le dessein commun de tous tend à la vraie dévotion, il n’est pas requis d’y faire ces particulières communications, de peur que cherchant en particulier ce qui est commun, on ne passe des particularités aux partialités ; mais quant à ceux qui sont entre les mondains et qui embrassent la vraie vertu, il leur est nécessaire de s’allier les uns aux autres par une sainte et sacrée amitié ; car par le moyen d’icelle ils s’animent, ils s’aident, ils s’entreportent au bien. Et comme ceux qui cheminent en la plaine n’ont pas besoin de se prêter la main, mais ceux qui sont ès chemins scabreux et glissants s’entretiennent l’un l’autre pour cheminer plus sûrement, ainsi ceux qui sont ès religions n’ont pas besoin des amitiés particulières, mais ceux qui sont au monde en ont nécessité pour s’assurer et secourir les uns les autres, parmi tant de mauvais passages qu’il leur faut franchir. Au monde, tous ne conspirent pas à même fin, tous n’ont pas le même esprit ; il faut donc sans doute se tirer à part et faire des amitiés selon notre prétention ; et cette particularité fait voirement une partialité, mais une partialité sainte, qui ne fait aucune division sinon celle du bien et du mal, des brebis et des chèvres, des abeilles et des frelons, séparation nécessaire.
Muitos vos dirão talvez que não se deve ter nenhuma espécie de afeição e amizade particular, visto que isso ocupa o coração, distrai o espírito, gera as invejas: mas eles se enganam nos seus conselhos; porque viram nos escritos de muitos santos e devotos autores que as amizades particulares e as afeições extraordinárias prejudicam infinitamente os religiosos; julgam que o mesmo se dá com o resto do mundo, mas há muita diferença. Porque, visto que num mosteiro bem regrado o intento comum de todos tende à verdadeira devoção, não é necessário fazer ali essas comunicações particulares, para que, buscando em particular o que é comum, não se passe das particularidades às parcialidades; mas, quanto aos que estão no meio dos mundanos e abraçam a verdadeira virtude, lhes é necessário aliar-se uns aos outros por uma santa e sagrada amizade; porque, por meio dela, eles se animam, se ajudam, se levam uns aos outros ao bem. E, assim como os que caminham pela planície não precisam dar-se a mão, mas os que estão em caminhos escabrosos e escorregadios se seguram uns aos outros para caminhar com mais segurança, assim os que estão nas ordens religiosas não precisam das amizades particulares, mas os que estão no mundo precisam delas para se firmarem e se socorrerem uns aos outros, no meio de tantos maus passos que lhes é preciso transpor. No mundo, nem todos conspiram para o mesmo fim, nem todos têm o mesmo espírito; é preciso, pois, sem dúvida, pôr-se à parte e fazer amizades conforme a nossa pretensão; e essa particularidade faz, na verdade, uma parcialidade, mas uma parcialidade santa, que não faz nenhuma divisão senão a do bem e do mal, das ovelhas e das cabras, das abelhas e dos vespões, separação necessária.
Certes, on ne saurait nier que Notre Seigneur n’aimât d’une plus douce et plus spéciale amitié saint Jean, le Lazare, Marthe, Madeleine, car l’Écriture le témoigne. On sait que saint Pierre chérissait tendrement saint Marc et sainte Pétronille, comme saint Paul faisait son Timothée et sainte Thècle. Saint Grégoire Nazianzène se vante cent fois de l’amitié nonpareille qu’il eut avec le grand saint Basile, et la décrit en cette sorte : « Il semblait qu’en l’un et l’autre de nous, il n’y eût qu’une seule âme portant deux corps. Que s’il ne faut pas croire ceux qui disent que toutes choses sont en toutes choses, si nous faut-il pourtant ajouter foi que nous étions tous deux en l’un de nous, et l’un en l’autre ; une seule prétention avions-nous tous deux, de cultiver la vertu et accommoder les desseins de notre vie aux espérances futures, sortant ainsi hors de la terre mortelle avant que d’y mourir ». Saint Augustin témoigne que saint Ambroise aimait uniquement sainte Monique, pour les rares vertus qu’il voyait en elle, et qu’elle réciproquement le chérissait comme un ange de Dieu.
Certamente, não se pode negar que Nosso Senhor amava com uma amizade mais doce e mais especial são João, Lázaro, Marta, Madalena, porque a Escritura o testemunha. Sabe-se que são Pedro queria ternamente a são Marcos e a santa Petronila, como são Paulo ao seu Timóteo e a santa Tecla. São Gregório Nazianzeno gaba-se cem vezes da amizade sem igual que teve com o grande são Basílio, e a descreve deste modo: «Parecia que em um e outro de nós não havia mais que uma só alma, que levava dois corpos. E, se não se deve crer nos que dizem que todas as coisas estão em todas as coisas, devemos contudo dar fé a que nós dois estávamos em cada um de nós, e um no outro; uma só pretensão tínhamos ambos, a de cultivar a virtude e acomodar os intentos da nossa vida às esperanças futuras, saindo assim da terra mortal antes de nela morrer». Santo Agostinho testemunha que santo Ambrósio amava singularmente santa Mônica, pelas raras virtudes que via nela, e que ela, reciprocamente, o queria como a um anjo de Deus.
Mais j’ai tort de vous amuser en chose si claire. Saint Jérôme, saint Augustin, saint Grégoire, saint Bernard et tous les plus grands serviteurs de Dieu ont eu de très particulières amitiés, sans intérêt de leur perfection. Saint Paul reprochant le détraquement des Gentils, les accuse d’avoir été gens sans affection, c’est-à-dire qui n’avaient aucune amitié. Et saint Thomas, comme tous les bons philosophes, confesse que l’amitié est une vertu : or, il parle de l’amitié particulière, puisque, comme il dit, la parfaite amitié ne peut s’étendre à beaucoup de personnes. La perfection donc ne consiste pas à n’avoir point d’amitié, mais à n’en avoir que de bonne, de sainte et sacrée.
Mas faço mal em vos deter em coisa tão clara. São Jerônimo, santo Agostinho, são Gregório, são Bernardo e todos os maiores servos de Deus tiveram amizades muito particulares, sem prejuízo da sua perfeição. São Paulo, censurando o desregramento dos gentios, acusa-os de terem sido gente sem afeição, isto é, que não tinha amizade nenhuma. E santo Tomás, como todos os bons filósofos, confessa que a amizade é uma virtude: ora, ele fala da amizade particular, visto que, como ele diz, a amizade perfeita não se pode estender a muitas pessoas. A perfeição, pois, não consiste em não ter amizade, mas em não ter senão amizade boa, santa e sagrada.