Parte IV
Chapitre XIII — Des consolations spirituelles et sensibles, et comme il se faut comporter en icelles
Capítulo XIII — Das consolações espirituais e sensíveis, e de como se deve proceder nelas
IV.13 Dieu continue l’être de ce grand monde en une perpétuelle vicissitude, par laquelle le jour se change toujours en nuit, le printemps en été, l’été en automne, l’automne en hiver et l’hiver en printemps, et l’un des jours ne ressemble jamais parfaitement l’autre : on en voit de nubileux, de pluvieux, de secs, de venteux, variété qui donne une grande beauté à cet univers. Il en est de même de l’homme, qui est, selon le dire des Anciens, un abrégé du monde ; car jamais il n’est en un même état, et sa vie écoule sur cette terre comme les eaux, flottant et ondoyant en une perpétuelle diversité de mouvements, qui tantôt l’élèvent aux espérances, tantôt l’abaissent par la crainte, tantôt le plient à droite par la consolation, tantôt à gauche par l’affliction, et jamais une seule de ses journées, ni même une de ses heures, n’est entièrement pareille à l’autre.
IV.13 Deus conserva o ser deste grande mundo numa perpétua vicissitude, pela qual o dia se muda sempre em noite, a primavera em verão, o verão em outono, o outono em inverno e o inverno em primavera, e um dia nunca se parece perfeitamente com o outro: veem-se uns nublados, outros chuvosos, outros secos, outros ventosos, variedade que dá uma grande beleza a este universo. O mesmo se dá com o homem, que é, segundo o dito dos Antigos, um compêndio do mundo; porque nunca está num mesmo estado, e a sua vida escoa sobre esta terra como as águas, flutuando e ondeando numa perpétua diversidade de movimentos, que ora o elevam às esperanças, ora o abaixam pelo temor, ora o dobram à direita pela consolação, ora à esquerda pela aflição; e nunca um só dos seus dias, nem mesmo uma das suas horas, é inteiramente igual ao outro.
C’est un grand avertissement que celui-ci : il nous faut tâcher d’avoir une continuelle et inviolable égalité de cœur, en une si grande inégalité d’accidents, et quoique toutes choses se tournent et varient diversement autour de nous, il nous faut demeurer constamment immobiles à toujours regarder, tendre et prétendre à notre Dieu. Que le navire prenne telle route qu’on voudra, qu’il cingle au ponant ou levant, au midi ou septentrion, et quelque vent que ce soit qui le porte, jamais pourtant son aiguille marine ne regardera que sa belle étoile et le pôle. Que tout se renverse sans dessus dessous, je ne dis pas seulement autour de nous, mais je dis en nous ; c’est-à-dire que notre âme soit triste, joyeuse, en douceur, en amertume, en paix, en trouble, en clarté, en ténèbres, en tentations, en repos, en goût, en dégoût, en sécheresse, en tendreté ; que le soleil la brûle ou que la rosée la rafraîchisse, ah ! si faut-il pourtant qu’à jamais et toujours la pointe de notre cœur, notre esprit, notre volonté supérieure, qui est notre boussole, regarde incessamment et tende perpétuellement à l’amour de Dieu son Créateur, son Sauveur, son unique et souverain bien. « Ou que nous vivions ou que nous mourions, dit l’Apôtre, si sommes-nous à Dieu…… Qui nous séparera de l’amour et charité de Dieu ? » Non, jamais rien ne nous séparera de cet amour : ni la tribulation, ni l’angoisse, ni la mort, ni la vie, ni la douleur présente, ni la crainte des accidents futurs, ni les artifices des malins esprits, ni la hauteur des consolations, ni la profondité des afflictions, ni la tendreté, ni la sécheresse ne nous doit jamais séparer de cette sainte charité, qui est fondée en Jésus-Christ.
É uma grande advertência esta: é preciso procurar ter uma contínua e inviolável igualdade de coração, numa tão grande desigualdade de acontecimentos; e, ainda que todas as coisas se voltem e variem diversamente à nossa volta, devemos permanecer constantemente imóveis, a olhar sempre, tender e pretender ao nosso Deus. Tome o navio a rota que se quiser, singre para o poente ou para o levante, para o meio-dia ou para o setentrião, e seja qual for o vento que o leve, nunca, contudo, a sua agulha de marear olhará senão para a sua bela estrela e para o polo. Que tudo se revire de cima a baixo, não digo só à nossa volta, mas digo dentro de nós; isto é, que a nossa alma esteja triste, alegre, em doçura, em amargura, em paz, em perturbação, em claridade, em trevas, em tentações, em repouso, em gosto, em desgosto, em secura, em ternura; que o sol a queime ou que o orvalho a refresque: ah! é preciso, contudo, que para sempre e sempre a ponta do nosso coração, o nosso espírito, a nossa vontade superior, que é a nossa bússola, olhe incessantemente e tenda perpetuamente para o amor de Deus, seu Criador, seu Salvador, seu único e soberano bem. «Quer vivamos, quer morramos, diz o Apóstolo, ainda assim somos de Deus…… Quem nos separará do amor e caridade de Deus?» Não, nunca nada nos separará desse amor: nem a tribulação, nem a angústia, nem a morte, nem a vida, nem a dor presente, nem o temor dos acontecimentos futuros, nem os artifícios dos espíritos malignos, nem a altura das consolações, nem a profundidade das aflições, nem a ternura, nem a secura nos deve jamais separar dessa santa caridade, que está fundada em Jesus Cristo.
Cette résolution si absolue de ne jamais abandonner Dieu ni quitter son doux amour, sert de contrepoids à nos âmes pour les tenir en la sainte égalité, parmi l’inégalité de divers mouvements, que la condition de cette vie lui apporte. Car, comme les avettes, se voyant surprises du vent en la campagne, embrassent des pierres pour se pouvoir balancer en l’air et n’être pas si aisément transportées à la merci de l’orage, ainsi notre âme ayant vivement embrassé par résolution le précieux amour de son Dieu, demeure constante parmi l’inconstance et vicissitude des consolations et afflictions, tant spirituelles que temporelles, tant extérieures qu’intérieures.
Esta resolução tão absoluta de nunca abandonar a Deus nem deixar o seu doce amor serve de contrapeso às nossas almas para as manter na santa igualdade, entre a desigualdade dos diversos movimentos que a condição desta vida lhes traz. Porque, assim como as abelhinhas, vendo-se surpreendidas pelo vento no campo, abraçam pedras para se poderem equilibrar no ar e não ser tão facilmente arrastadas à mercê da tempestade, assim a nossa alma, tendo abraçado vivamente por resolução o precioso amor do seu Deus, permanece constante entre a inconstância e a vicissitude das consolações e aflições, tanto espirituais como temporais, tanto exteriores como interiores.
Mais outre cette générale doctrine, nous avons besoin de quelques documents particuliers.
Mas, além desta doutrina geral, precisamos de alguns ensinamentos particulares.
1. Je dis donc que la dévotion ne consiste pas en la douceur, suavité, consolation et tendreté sensible du cœur, qui nous provoque aux larmes et soupirs, et nous donne une certaine satisfaction agréable et savoureuse en quelques exercices spirituels. Non, chère Philothée, la dévotion et cela ne sont pas une même chose ; car il y a beaucoup d’âmes qui ont de ces tendretés et consolations, qui néanmoins ne laissent pas d’être fort vicieuses, et par conséquent n’ont aucun vrai amour de Dieu et, beaucoup moins, aucune vraie dévotion. Saül poursuivant à mort le pauvre David, qui fuyait devant lui ès déserts d’Engaddi, entra tout seul en une caverne, en laquelle David avec ses gens étaient cachés ; David, qui en cette occasion l’eût pu mille fois tuer, lui donna la vie et ne voulut seulement pas lui faire peur, ains l’ayant laissé sortir à son aise l’appela par après, pour lui remontrer son innocence, et lui faire connaître qu’il avait été à sa merci. Or, sur cela, qu’est-ce que ne fit pas Saül, pour témoigner que son cœur était amolli envers David ? Il le nomma son enfant, il se mit à pleurer tout haut, à le louer, à confesser sa débonnaireté, à prier Dieu pour lui, à présager sa future grandeur et à lui recommander la postérité qu’il devait laisser après soi. Quelle plus grande douceur et tendreté de cœur, pouvait-il faire paraître ? et pour tout cela, néanmoins, il n’avait point changé son âme, ne laissant pas de continuer sa persécution contre David, aussi cruellement qu’auparavant.
1. Digo, pois, que a devoção não consiste na doçura, suavidade, consolação e ternura sensível do coração, que nos provoca às lágrimas e aos suspiros, e nos dá uma certa satisfação agradável e saborosa em alguns exercícios espirituais. Não, cara Filoteia, a devoção e isso não são uma mesma coisa; porque há muitas almas que têm essas ternuras e consolações e que, no entanto, não deixam de ser muito viciosas, e, por conseguinte, não têm nenhum verdadeiro amor de Deus e, muito menos, nenhuma verdadeira devoção. Saul, perseguindo de morte o pobre Davi, que fugia diante dele pelos desertos de Engadi, entrou sozinho numa caverna, na qual Davi estava escondido com a sua gente; Davi, que nessa ocasião o teria podido matar mil vezes, deu-lhe a vida e não quis sequer assustá-lo, mas, tendo-o deixado sair à vontade, chamou-o depois, para lhe mostrar a sua inocência e lhe fazer conhecer que estivera à sua mercê. Ora, diante disso, que não fez Saul para testemunhar que o seu coração se abrandara para com Davi? Chamou-o seu filho, pôs-se a chorar em voz alta, a louvá-lo, a confessar a sua mansidão, a pedir a Deus por ele, a pressagiar a sua grandeza futura e a recomendar-lhe a descendência que havia de deixar depois de si. Que maior doçura e ternura de coração podia ele mostrar? e, com tudo isso, no entanto, não tinha mudado a sua alma, pois não deixou de continuar a sua perseguição contra Davi tão cruelmente como antes.
Ainsi se trouve-t-il des personnes, qui considérant la bonté de Dieu et la Passion du Sauveur sentent des grands attendrissements de cœur, qui leur font jeter des soupirs, des larmes, des prières et actions de grâces fort sensibles, si qu’on dirait qu’elles ont le cœur saisi d’une bien grande dévotion. Mais quand ce vient à l’essai, on trouve que comme les pluies passagères d’un été bien chaud, qui tombant en grosses gouttes sur la terre ne la pénètrent point et ne servent qu’à la production des champignons, ainsi ces larmes et tendretés tombant sur un cœur vicieux et ne le pénétrant point, lui sont tout à fait inutiles : car pour tout cela, les pauvres gens ne quitteraient pas un seul liard du bien mal acquis qu’ils possèdent, ne renonceraient pas une seule de leurs perverses affections, et ne voudraient pas avoir pris la moindre incommodité du monde, pour le service du Sauveur sur lequel ils ont pleuré ; en sorte que les bons mouvements qu’ils ont eus, ne sont que des certains champignons spirituels, qui non seulement ne sont pas la vraie dévotion, mais bien souvent sont des grandes ruses de l’ennemi, qui, amusant les âmes à ces menues consolations, les fait demeurer contentes et satisfaites en cela, à ce qu’elles ne cherchent plus la vraie et solide dévotion, qui consiste en une volonté constante, résolue, prompte et active d’exécuter ce que l’on sait être agréable à Dieu.
Assim há pessoas que, considerando a bondade de Deus e a Paixão do Salvador, sentem grandes enternecimentos de coração, que as fazem soltar suspiros, lágrimas, preces e ações de graças muito sensíveis, de sorte que se diria que têm o coração tomado de uma grandíssima devoção. Mas, quando se chega à prova, acha-se que, assim como as chuvas passageiras de um verão bem quente, que, caindo em grossas gotas sobre a terra, não a penetram e só servem para a produção de cogumelos, assim essas lágrimas e ternuras, caindo sobre um coração vicioso e não o penetrando, lhe são de todo inúteis: porque, com tudo isso, os pobres coitados não largariam um só vintém do bem mal adquirido que possuem, não renunciariam a uma só das suas perversas afeições, e não quereriam ter tomado o menor incômodo do mundo pelo serviço do Salvador sobre o qual choraram; de sorte que os bons movimentos que tiveram não passam de certos cogumelos espirituais, que não só não são a verdadeira devoção, mas muitas vezes são grandes astúcias do inimigo, que, entretendo as almas com essas pequenas consolações, as faz ficar contentes e satisfeitas com isso, para que não busquem mais a verdadeira e sólida devoção, que consiste numa vontade constante, resoluta, pronta e ativa de executar o que se sabe ser agradável a Deus.
Un enfant pleurera tendrement, s’il voit donner un coup de lancette à sa mère qu’on saigne ; mais si à même temps sa mère, pour laquelle il pleurait, lui demande une pomme ou un cornet de dragée qu’il tient en sa main, il ne le voudra nullement lâcher. Telles sont la plupart de nos tendres dévotions : voyant donner un coup de lance qui transperce le cœur de Jésus-Christ crucifié, nous pleurons tendrement. Hélas ! Philothée, c’est bien fait de pleurer sur cette mort et passion douloureuse de notre Père et Rédempteur ; mais pourquoi donc ne lui donnons-nous tout de bon la pomme que nous avons en nos mains et qu’il nous demande si instamment, à savoir notre cœur, unique pomme d’amour que ce cher Sauveur requiert de nous ? Que ne lui résignons-nous tant de menues affections, délectations, complaisances, qu’il nous veut arracher des mains et ne peut, parce que c’est notre dragée, de laquelle nous sommes plus friands, que désireux de sa céleste grâce ? Ah ! ce sont des amitiés de petits enfants que cela, tendres, mais faibles, mais fantasques, mais sans effet. La dévotion donc ne gît pas en ces tendretés et sensibles affections, qui quelquefois procèdent de la nature, qui est ainsi molle et susceptible de l’impression qu’on lui veut donner, et quelquefois viennent de l’ennemi qui, pour nous amuser à cela, excite notre imagination à l’appréhension propre pour tels effets.
Uma criança chorará ternamente se vir dar um golpe de lanceta na mãe, a quem estão sangrando; mas, se no mesmo instante a mãe, por quem chorava, lhe pedir uma maçã ou um cartucho de confeitos que tem na mão, de modo nenhum o quererá largar. Tais são a maior parte das nossas ternas devoções: vendo dar o golpe de lança que traspassa o coração de Jesus Cristo crucificado, choramos ternamente. Ai! Filoteia, é bem feito chorar sobre essa morte e paixão dolorosa do nosso Pai e Redentor; mas por que, então, não lhe damos deveras a maçã que temos nas mãos e que ele nos pede tão instantemente, a saber, o nosso coração, única maçã de amor que esse querido Salvador requer de nós? Por que não lhe entregamos tantas pequenas afeições, deleites, complacências, que ele nos quer arrancar das mãos e não pode, porque são o nosso confeito, do qual somos mais gulosos do que desejosos da sua graça celeste? Ah! são amizades de criancinhas, essas: ternas, mas fracas, mas caprichosas, mas sem efeito. A devoção, pois, não está nessas ternuras e afeições sensíveis, que às vezes procedem da natureza, a qual é assim mole e suscetível da impressão que se lhe quer dar, e às vezes vêm do inimigo, que, para nos entreter com isso, excita a nossa imaginação à apreensão própria para tais efeitos.
2. Ces tendretés et affectueuses douceurs sont néanmoins quelquefois très bonnes et utiles ; car elles excitent l’appétit de l’âme, confortent l’esprit, et ajoutent à la promptitude de la dévotion une sainte gaîté et allégresse, qui rend nos actions belles et agréables, même en l’extérieur. C’est ce goût que l’on a ès choses divines, pour lequel David s’écriait : « O Seigneur, que vos paroles sont douces à mon palais ! elles sont plus douces que le miel à ma bouche ». Et certes, la moindre petite consolation de la dévotion, que nous recevons, vaut mieux de toute façon que les plus excellentes récréations du monde. Les mamelles et le lait, c’est-à-dire les faveurs du divin Époux, sont meilleures à l’âme que le vin le plus précieux des plaisirs de la terre : qui en a goûté, tient tout le reste des autres consolations pour du fiel et de l’absinthe. Et comme ceux qui ont l’herbe scitique en la bouche en reçoivent une si extrême douceur, qu’ils ne sentent ni faim ni soif, ainsi ceux à qui Dieu a donné cette manne céleste des suavités et consolations intérieures, ne peuvent désirer ni recevoir les consolations du monde, pour au moins y prendre goût et y amuser leurs affections. Ce sont des petits avant-goût des suavités immortelles, que Dieu donne aux âmes qui le cherchent ; ce sont des grains sucrés, qu’il donne à ses petits enfants pour les amorcer ; ce sont des eaux cordiales, qu’il leur présente pour les conforter, et ce sont aussi quelquefois des arrhes des récompenses éternelles. On dit qu’Alexandre le Grand, cinglant en haute mer, découvrit premièrement l’Arabie Heureuse, par le sentiment qu’il eut des suaves odeurs que le vent lui donnait ; et sur cela, se donna du courage, et à tous ses compagnons : ainsi nous recevons souvent des douceurs et suavités en cette mer de la vie mortelle, qui sans doute nous font pressentir les délices de cette patrie céleste, à laquelle nous tendons et aspirons.
2. Essas ternuras e afetuosas doçuras são, no entanto, às vezes muito boas e úteis; porque excitam o apetite da alma, confortam o espírito e acrescentam à prontidão da devoção uma santa alegria e júbilo, que torna as nossas ações belas e agradáveis, mesmo no exterior. É esse gosto que se tem nas coisas divinas, pelo qual Davi exclamava: «Ó Senhor, como as vossas palavras são doces ao meu paladar! são mais doces que o mel à minha boca». E, certamente, a mais pequenina consolação da devoção que recebemos vale mais, de todo modo, que as mais excelentes recreações do mundo. Os seios e o leite, isto é, os favores do divino Esposo, são melhores para a alma que o vinho mais precioso dos prazeres da terra: quem os provou tem todo o resto das outras consolações por fel e absinto. E, assim como os que têm na boca a erva cítica recebem dela uma doçura tão extrema que não sentem nem fome nem sede, assim aqueles a quem Deus deu esse maná celeste das suavidades e consolações interiores não podem desejar nem receber as consolações do mundo, ao menos para tomar gosto nelas e entreter nelas as suas afeições. São pequenos antegostos das suavidades imortais que Deus dá às almas que o buscam; são grãos açucarados que ele dá aos seus filhinhos para os atrair; são águas cordiais que lhes apresenta para os confortar; e são também, às vezes, arras das recompensas eternas. Diz-se que Alexandre Magno, singrando em alto-mar, descobriu primeiro a Arábia Feliz pelo sentimento que teve dos suaves odores que o vento lhe trazia; e, com isso, cobrou ânimo, e o deu a todos os seus companheiros: assim nós recebemos muitas vezes doçuras e suavidades neste mar da vida mortal, que sem dúvida nos fazem pressentir as delícias daquela pátria celeste, a que tendemos e aspiramos.
3. Mais, ce me direz-vous, puisqu’il y a des consolations sensibles qui sont bonnes et viennent de Dieu, et que néanmoins il y en a des inutiles, dangereuses, voire pernicieuses, qui viennent ou de la nature ou même de l’ennemi, comment pourrai-je discerner les unes des autres et connaître les mauvaises ou inutiles entre les bonnes ? C’est une générale doctrine, très chère Philothée, pour les affections et passions de nos âmes, que nous les devons connaître par leurs fruits. Nos cœurs sont des arbres, les affections et passions sont leurs branches, et leurs œuvres ou actions sont les fruits. Le cœur est bon, qui a de bonnes affections, et les affections et passions sont bonnes, qui produisent en nous des bons effets et saintes actions. Si les douceurs, tendretés et consolations nous rendent plus humbles, patients, traitables, charitables et compatissants à l’endroit du prochain, plus fervents à mortifier nos concupiscences et mauvaises inclinations, plus constants en nos exercices, plus maniables et souples à ceux à qui nous devons obéir, plus simples en notre vie, sans doute, Philothée, qu’elles sont de Dieu ; mais si ces douceurs n’ont de la douceur que pour nous, qu’elles nous rendent curieux, aigres, pointilleux, impatients, opiniâtres, fiers, présomptueux, durs à l’endroit du prochain, et que, pensant déjà être des petits saints, nous ne voulons plus être sujets à la direction ni à la correction, indubitablement ce sont des consolations fausses et pernicieuses. « Un bon arbre ne produit que des bons fruits ».
3. Mas, me direis, já que há consolações sensíveis que são boas e vêm de Deus, e que, no entanto, há outras inúteis, perigosas e até perniciosas, que vêm ou da natureza ou mesmo do inimigo, como poderei discernir umas das outras e conhecer as más ou inúteis entre as boas? É uma doutrina geral, caríssima Filoteia, para as afeições e paixões das nossas almas, que devemos conhecê-las pelos seus frutos. Os nossos corações são árvores; as afeições e paixões são os seus ramos, e as suas obras ou ações são os frutos. É bom o coração que tem boas afeições, e são boas as afeições e paixões que produzem em nós bons efeitos e santas ações. Se as doçuras, ternuras e consolações nos tornam mais humildes, pacientes, tratáveis, caridosos e compassivos para com o próximo, mais fervorosos em mortificar as nossas concupiscências e más inclinações, mais constantes nos nossos exercícios, mais manejáveis e dóceis para com aqueles a quem devemos obedecer, mais simples na nossa vida, sem dúvida, Filoteia, são de Deus; mas, se essas doçuras só têm doçura para nós, se nos tornam curiosos, azedos, suscetíveis, impacientes, obstinados, altivos, presunçosos, duros para com o próximo, e se, julgando-nos já uns santinhos, não queremos mais estar sujeitos à direção nem à correção, indubitavelmente são consolações falsas e perniciosas. «Uma boa árvore não produz senão bons frutos».
4. Quand nous aurons de ces douceurs et consolations, 1. Il nous faut beaucoup humilier devant Dieu ; gardons-nous bien de dire pour ces douceurs : « Oh ! que je suis bon ! » Non, Philothée, ce sont des biens qui ne nous rendent pas meilleurs, car, comme j’ai dit, la dévotion ne consiste pas en cela ; mais disons : « Oh ! que Dieu est bon à ceux qui espèrent en lui, à l’âme qui le recherche ! » Qui a le sucre en bouche ne peut pas dire que sa bouche soit douce, mais oui bien que le sucre est doux ; ainsi, encore que cette douceur spirituelle est fort bonne, et Dieu qui nous la donne est très bon, il ne s’ensuit pas que celui qui la reçoit soit bon. 2. Connaissons que nous sommes encore de petits enfants qui avons besoin du lait, et que ces grains sucrés nous sont donnés parce que nous avons encore l’esprit tendre et délicat, qui a besoin d’amorces et d’appas pour être attiré à l’amour de Dieu. 3. Mais après cela, parlant généralement et pour l’ordinaire, recevons humblement ces grâces et faveurs et les estimons extrêmement grandes, non tant parce qu’elles le sont en elles-mêmes, comme parce que c’est la main de Dieu qui nous les met au cœur ; comme ferait une mère, qui pour amadouer son enfant, lui mettrait elle-même les grains de dragée en bouche, l’un après l’autre, car si l’enfant avait de l’esprit, il priserait plus la douceur de la mignardise et caresse que sa mère lui fait, que la douceur de la dragée même. Et ainsi, c’est beaucoup, Philothée, d’avoir les douceurs ; mais c’est la douceur des douceurs de considérer que Dieu, de sa main amoureuse et maternelle, les nous met en la bouche, au cœur, en l’âme, en l’esprit. 4. Les ayant reçues ainsi humblement, employons-les soigneusement, selon l’intention de Celui qui les nous donne. Pourquoi pensons-nous que Dieu nous donne ces douceurs ? pour nous rendre doux envers un chacun et amoureux envers lui. La mère donne la dragée à l’enfant, afin qu’il la baise : baisons donc ce Sauveur qui nous donne tant de douceur. Or, baiser le Sauveur, c’est lui obéir, garder ses commandements, faire ses volontés, suivre ses désirs : bref, l’embrasser tendrement avec obéissance et fidélité. Quand donc nous aurons reçu quelque consolation spirituelle, il faut ce jour-là se rendre plus diligents à bien faire et à nous humilier. 5. Il faut, outre tout cela, renoncer de temps en temps à telles douceurs, tendretés et consolations, séparant notre cœur d’icelles et protestant, qu’encore que nous les acceptions humblement et les aimions, parce que Dieu nous les envoie et qu’elles nous provoquent à son amour, ce ne sont néanmoins pas elles que nous cherchons, mais Dieu et son saint amour ; non la consolation, mais le Consolateur ; non la douceur, mais le doux Sauveur ; non la tendreté, mais Celui qui est la suavité du ciel et de la terre ; et en cette affection nous nous devons disposer à demeurer fermes au saint amour de Dieu, quoique de notre vie nous ne dussions jamais avoir aucune consolation, et de vouloir dire également sur le mont de Calvaire, comme sur celui de Thabor : « O Seigneur, il m’est bon d’être avec vous », ou que vous soyez en croix, ou que vous soyez en gloire. 6. Finalement je vous avertis, que s’il vous arrivait quelque notable abondance de telles consolations, tendretés, larmes et douceurs, ou quelque chose d’extraordinaire en icelles, vous en confériez fidèlement avec votre conducteur, afin d’apprendre comme il s’y faut modérer et comporter, car il est écrit : « As-tu trouvé le miel ? manges-en ce qui suffit ».
4. Quando tivermos dessas doçuras e consolações, 1. Devemos humilhar-nos muito diante de Deus; guardemo-nos bem de dizer por causa dessas doçuras: «Oh! como sou bom!» Não, Filoteia, são bens que não nos tornam melhores, porque, como eu disse, a devoção não consiste nisso; mas digamos: «Oh! como Deus é bom para os que esperam nele, para a alma que o busca!» Quem tem açúcar na boca não pode dizer que a sua boca é doce, mas sim que o açúcar é doce; assim, ainda que essa doçura espiritual seja muito boa, e Deus, que a dá a nós, seja muito bom, não se segue que quem a recebe seja bom. 2. Reconheçamos que ainda somos criancinhas que precisam de leite, e que esses grãos açucarados nos são dados porque ainda temos o espírito tenro e delicado, que precisa de engodos e iscas para ser atraído ao amor de Deus. 3. Mas, depois disso, falando em geral e de ordinário, recebamos humildemente essas graças e favores e estimemo-los extremamente grandes, não tanto porque o são em si mesmos, como porque é a mão de Deus que os põe em nosso coração; como faria uma mãe que, para agradar o filho, lhe pusesse ela mesma os confeitos na boca, um depois do outro; porque, se a criança tivesse juízo, apreciaria mais a doçura do mimo e da carícia que a mãe lhe faz do que a doçura do próprio confeito. E assim, é muito, Filoteia, ter as doçuras; mas é a doçura das doçuras considerar que Deus, com a sua mão amorosa e maternal, as põe em nossa boca, em nosso coração, em nossa alma, em nosso espírito. 4. Tendo-as recebido assim humildemente, empreguemo-las cuidadosamente segundo a intenção Daquele que as dá a nós. Por que pensamos que Deus nos dá essas doçuras? para nos tornar doces para com todos e amorosos para com ele. A mãe dá o confeito ao filho para que ele a beije: beijemos, pois, esse Salvador que nos dá tanta doçura. Ora, beijar o Salvador é obedecer-lhe, guardar os seus mandamentos, fazer as suas vontades, seguir os seus desejos: em suma, abraçá-lo ternamente com obediência e fidelidade. Quando, pois, tivermos recebido alguma consolação espiritual, é preciso, nesse dia, tornar-nos mais diligentes em fazer o bem e em nos humilhar. 5. É preciso, além de tudo isso, renunciar de tempos em tempos a tais doçuras, ternuras e consolações, separando delas o nosso coração e protestando que, ainda que as aceitemos humildemente e as amemos, porque Deus as envia a nós e porque nos provocam ao seu amor, não são elas, no entanto, que buscamos, mas Deus e o seu santo amor; não a consolação, mas o Consolador; não a doçura, mas o doce Salvador; não a ternura, mas Aquele que é a suavidade do céu e da terra; e, nessa afeição, devemos dispor-nos a permanecer firmes no santo amor de Deus, ainda que em toda a nossa vida nunca houvéssemos de ter nenhuma consolação, e a querer dizer igualmente sobre o monte Calvário como sobre o Tabor: «Ó Senhor, é bom para mim estar convosco», quer estejais na cruz, quer estejais na glória. 6. Finalmente, advirto-vos que, se vos acontecer alguma notável abundância de tais consolações, ternuras, lágrimas e doçuras, ou alguma coisa de extraordinário nelas, trateis disso fielmente com o vosso guia, a fim de aprender como é preciso moderar-se e portar-se nelas, porque está escrito: «Achaste mel? come dele o que basta».