Parte IV
Chapitre II — Qu’il faut avoir bon courage
Capítulo II — Que é preciso ter bom ânimo
IV.2 La lumière, quoique belle et désirable à nos yeux, les éblouit néanmoins, après qu’ils ont été en des longues ténèbres ; et devant que l’on se voie apprivoisé avec les habitants de quelques pays, pour courtois et gracieux qu’ils soient, on s’y trouve aucunement étonné. Il se pourra bien faire, ma chère Philothée, qu’à ce changement de vie plusieurs soulèvements se feront en votre intérieur, et que ce grand et général adieu que vous avez dit aux folies et niaiseries du monde vous donnera quelque ressentiment de tristesse et découragement. Si cela vous arrive, ayez un peu de patience, je vous prie, car ce ne sera rien : ce n’est qu’un peu d’étonnement que la nouveauté vous apporte ; passé cela, vous recevrez dix mille consolations. Il vous fâchera peut-être d’abord de quitter la gloire que les fols et moqueurs vous donnaient en vos vanités ; mais, o Dieu, voudriez-vous bien perdre l’éternelle, que Dieu vous donnera en vérité ? Les vains amusements et passe-temps, èsquels vous avez employé les années passées, se représenteront encore à votre cœur pour l’appâter et faire retourner de leur côté ; mais auriez-vous bien le courage de renoncer à cette heureuse éternité pour des si trompeuses légèretés ? Croyez-moi, si vous persévérez, vous ne tarderez pas de recevoir des douceurs cordiales si délicieuses et agréables, que vous confesserez que le monde n’a que du fiel en comparaison de ce miel, et qu’un seul jour de dévotion vaut mieux que mille années de la vie mondaine.
IV.2 A luz, ainda que bela e desejável aos nossos olhos, os ofusca, no entanto, depois que estiveram em longas trevas; e, antes que nos vejamos familiarizados com os habitantes de alguma terra, por corteses e afáveis que sejam, sentimo-nos lá um tanto desconcertados. Bem poderá acontecer, minha cara Filoteia, que nesta mudança de vida se levantem muitas agitações no vosso interior, e que este grande e geral adeus que dissestes às loucuras e tolices do mundo vos dê algum sentimento de tristeza e desânimo. Se isso vos acontecer, tende um pouco de paciência, peço-vos, porque não será nada: não é mais que um pouco de estranheza que a novidade vos traz; passado isso, recebereis dez mil consolações. Talvez vos custe, a princípio, deixar a glória que os loucos e zombadores vos davam pelas vossas vaidades; mas, ó Deus, quereríeis vós perder a eterna, que Deus vos dará em verdade? Os vãos divertimentos e passatempos em que empregastes os anos passados se apresentarão ainda ao vosso coração para o engodar e fazer voltar para o lado deles; mas teríeis vós a coragem de renunciar a essa feliz eternidade por tão enganosas leviandades? Crede-me: se perseverardes, não tardareis a receber doçuras cordiais tão deliciosas e agradáveis, que confessareis que o mundo não tem senão fel em comparação com este mel, e que um só dia de devoção vale mais que mil anos da vida mundana.
Mais vous voyez que la montagne de la perfection chrétienne est extrêmement haute : « Eh ! mon Dieu, ce dites-vous, comment pourrai-je monter ? » Courage ! Philothée quand les petits mouchons des abeilles commencent à prendre forme, on les appelle nymphes : et lors, ils ne sauraient encore voler sur les fleurs, ni sur les monts, ni sur les collines voisines, pour amasser le miel ; mais petit à petit, se nourrissant du miel que leurs mères ont préparé, ces petites nymphes prennent des ailes et se fortifient, en sorte que par après ils volent à la quête par tout le paysage. Il est vrai, nous sommes encore de petits mouchons en la dévotion : nous ne saurions monter selon notre dessein, qui n’est rien moindre que d’atteindre à la cime de la perfection chrétienne ; mais si commençons-nous à prendre forme par nos désirs et résolutions ; les ailes nous commencent à sortir : il faut donc espérer qu’un jour nous serons abeilles spirituelles et que nous volerons ; et tandis, vivons du miel de tant d’enseignements que les anciens dévots nous ont laissés, et prions Dieu qu’il nous donne des plumes comme de colombe, afin que non seulement nous puissions voler au temps de la vie présente, mais aussi nous reposer en l’éternité de la future.
Mas vedes que a montanha da perfeição cristã é extremamente alta: «Ah! meu Deus, dizeis vós, como poderei subir?» Coragem, Filoteia! Quando as pequenas crias das abelhas começam a tomar forma, chamam-se ninfas; e então ainda não poderiam voar sobre as flores, nem sobre os montes, nem sobre as colinas vizinhas, para juntar o mel; mas, pouco a pouco, alimentando-se do mel que as suas mães prepararam, essas pequenas ninfas ganham asas e se fortalecem, de sorte que depois voam à cata por toda a paisagem. É verdade: somos ainda pequenas crias na devoção; não poderíamos subir segundo o nosso desígnio, que não é nada menos que atingir o cimo da perfeição cristã; mas, ainda assim, começamos a tomar forma pelos nossos desejos e resoluções; as asas começam a sair-nos: é preciso, pois, esperar que um dia seremos abelhas espirituais e voaremos; e, entretanto, vivamos do mel de tantos ensinamentos que os antigos devotos nos deixaram, e peçamos a Deus que nos dê penas como de pomba, para que não só possamos voar no tempo da vida presente, mas também repousar na eternidade da futura.