Sonetos
Em que estado, meu bem, por ti me vejo
Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso, e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilhões adoro e beijo:
Quando te logro mais, mais te desejo,
Quando te encontro mais, mais te procuro,
Quando m'o juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo,
Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d'alma a paz, e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados:
E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
«Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.»