Sonetos
O céu não te dotou de formosura
O céu não te dotou de formosura,
De atrativo exterior, e a Natureza
Teu peito inficionou co'a vil torpeza
De ingrata condição, falaz, e impura:
Influiu-me os extremos da ternura
A constância, o fervor, e a singeleza,
Esses dons mais gentis que a gentileza,
Dons, que o tempo fugaz não desfigura:
Apesar da traição, do fingimento
Que te infama, e desluz, se enleva e para
Em ti, alma infiel, meu pensamento:
Nas paixões a razão nos desampara;
Se a razão presidisse ao sentimento,
Tu morreras por mim, eu não te amara.