Sonetos
Qual o avaro infeliz, que não descansa
Qual o avaro infeliz, que não descansa,
Volvendo os olhos d'um para o outro lado,
Por cuidar que ao tesouro idolatrado
Cubiçosa vontade as mãos lhe lança:
Tal eu, meu doce amor, minha esperança,
De suspeitas cruéis atormentado,
Receio que a distância, o tempo, o fado
Te arranquem meus carinhos da lembrança:
Receio que, por minha adversidade,
Novo amante sagaz, e lisonjeiro
Macule de teus votos a lealdade:
Ah! crê, bela Gertrúria, que o primeiro
Dia, em que eu chore a tua variedade,
Será da minha vida o derradeiro.