Sonetos
Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga
Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga,
Horror do mundo, escândalo da gente,
Que um férreo peito, uma alma que não sente,
Não merece a paixão, que me afadiga:
O céu te falte, a terra te persiga,
Negras fúrias o inferno te apresente,
E da baça tristeza o voraz dente
Morda o vil coração, que Amor não liga:
Disfarçados, mortíferos venenos
Entre liquor suave em áurea taça
Mão vingativa te prepare ao menos:
E seja, seja tal tua desgraça,
Que ainda por mais leves, mais pequenos
Os meus tormentos invejar te faça.