Sonetos
Vítima do rigor, e da tristeza
Vítima do rigor, e da tristeza,
Em negra estância, em cárcere profundo,
O mundo habito sem saber do mundo,
Como que não pertenço à natureza:
Enquanto pela vasta redondeza
Vai solto o crime infesto, o vício imundo,
Eu (não perverso) em pranto a face inundo,
Do grilhão suportando a vil dureza:
Mas no bojo voraz da desventura,
Monstro por cujas faces fui tragado,
Em parte um pensamento a dor me cura:
O infeliz (não por culpa, só por fado)
N'aqueles corações em que há ternura,
É mais interessante, é mais amado.