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Sextilhas de Frei Antão

Lenda de São Gonçalo

Agora de um grande Santo
Embora lhe cabe a vez;
Bom Santo foi São Gonçalo,
Pesar que foi Português,
Que santos ditos que disse!
Que santas obras que fez!
Bom tempo foi o d'outrora!
Não lhe quero outra rezão:
Criava a terra gigantes,
Havia Santos então,
Havia paz e liança
Nos reis do reino cristão.
É coisa de maravilha
E de louvar o Senhor,
Ver na terra homens d'aqueles
De tanto esforço e valor,
Como Gonçalo da Maia
Ou Giraldes sem pavor!
Mas destes tratar não quero,
Que são mui perto de nós;
D'outros digo tão pujantes
E de aspecto tão feroz,
Que um santo mártir trincavam,
Como quem trinca uma noz.
Quando a fé'stava mais pura
Melhor se mostrava Deus;
Rezão disto as Escrituras,
Escusa pois ditos meus:
Começa do fim ditoso
Dos sete irmãos Macabeus.
Nada conta o livro santo
Do rei que se ouve assi,
O corpo nos não descreve;
Mas eu tenho pera mi,
Que devia ser taludo,
Como uns cafres que já vi!
Que sete irmãos como aqueles,
Cada qual como um Sansão,
Não é coisa que por brinco
Se frite n'um cangirão,
Que se retalhe em fatias
Delgadas, como de pão.
Mas Deus que lhes deparava
Em sua alta providência
Tal fereza nos algozes,
Dava-lhes tal paciência,
Que haviam em pouco o trato,
Havendo o trato em clemência.
Hoje d'aquela virtude
Só a lição nos ficou;
O tempo nos foi comendo
O corpo, que assi leixou,
E té no esprito roído
De vez a fé desbotou.
Não pasmo disto, mas antes
De ver em povo d'incréus,
Quem tema o fogo divino,
Quem torne a casa de Deus,
Quando o pasmoso cometa
Alarga as asas nos céus.
Cegos! se todos fôsseis
Criados na escuridade,
Que faríeis lobrigando
Deste sol a claridade,
Deste sol que sempre luze,
E pera vos luze embalde?
Como insetos esmagados,
Alastrando longe o chão,
Tontos de pasmo e de medo
Ficaríeis vós então,
Os olhos do corpo cegos,
Mas dentro d'alma o clarão.
E ainda mais — ¿ que faríeis
Vendo aquele sol divino,
Que cega os olhos do esprito,
Como de corpo franzino,
Se vendo este, qu'inda é terra,
Ficades tontos, sem tino?
Antes, Senhor, que me esqueça
Quanto fizestes por mi,
Lavai-me dos meus pecados,
Que eu como galas verti,
Levai-me desta amargura,
Levai-me, Senhor, daqui!
Levai-me, si, que eu não veja,
Mal de mi! com tanta dor
Vossos preceitos divinos,
Vossa doutrina d'amor
Trocada em usos de feros,
Na religião do terror!
Mas se isto vos não mereço,
Já vos não peço, senão
Que eu veja da minha vida
Extinto e cego o clarão,
Antes que eu veja maldita
Esta mesma religião.
Antes que eu veja crianças
Pregarem às cãs nevadas,
A correr de noite as ruas
Com folias e toadas,
Por ver asas de cometa
Imensamente alongadas.
Cant'eu, de mi o confesso,
São velozes caminheiros,
Que por ordem lá de cima,
De más novas mensageiros,
Vão batendo d'astro em astro,
Como divinos romeiros.
Se comtudo um Português
Al dos cometas sentir,
Se esta desgraça presente
Neles não viu reluzir,
Dir-lhe-hei que ele não sente
O dó de Alcácer-quibir.
Dir-lhe-hei... mas nada digo!
Eu alquebrado ancião
Hei mister santo descanso
Pera a minha devação:
Sei que ser Português hoje
É crime d'alta treição.
Agora torno ao meu Santo;
A lenda aqui principia:
Dai-me, ó Santo milagroso,
Ajuda em tenção tão pia,
Que um Santo, mesmo por ende,
Deve de usar cortesia.
Frei São Gonçalo era Abade
De São Paio na Abadia;
Era mancebo nos anos,
Mas como santo vivia;
Com toda a renda que tinha
Aos pobres seus acudia.
Era pingue o benefício,
Bons benesses que ele tinha!
Bons portugueses antigos,
Boa prata comezinha!
Já disso não vejo há muito....
Deve ser cegueira minha.
Cegueira, si; que se o reino
Era rico de pobreza,
Cavados tantos tesoiros
Em cada uma fortaleza,
Tanto arcaz de feição moura
Cheios de tanta riqueza;
Por que então não vejo agora
Senão grosseiros ceitis,
E esses mesmos não tantos
Que se meçam por candis,
Ou então pesos d'Espanha,
Só bem aceitos por vis?
Mas é tal nossa mofina
Que na minha sacristia,
Somados todos no cabo
Os fruitos de cada dia,
Não dão pera o óleo santo,
Que a mãe de Deus alumia!
É certo miséria grande,
E muito grande estranheza,
Que o povo leixe que os frades
Corram com toda a despesa,
Eles coitados que vivem
Em mais que parca estreiteza!
Mas Deus é o santo dos santos,
Ele nos há de acudir;
Assi fora eu São Gonçalo,
Que logo faria vir
Brocados d'altos recamos
Pera a Senhora vestir.
E uns paramentos ricos,
Como nunca os viu ninguém;
E lâmpada como aquela
Que em Benfica os Padres têm,
Uns castiçais de pé alto,
Umas galhetas também.
Mas do Santo São Gonçalo
Era outra a devação;
Todolo próe dava aos pobres
Com tão largo coração,
Que não tomava um adarme
De quanto tinha na mão.
Vivia como se fora
Dos seus pobres despenseiro,
Tudo com eles gastava,
Que não somente dinheiro;
Fiava que Deus iria
Compondo o seu mealheiro.
Trazia guerra travada
Co'o Demo, que o não deixava,
Os acicates da carne
Com jejuns os despontava;
E tinha tão santa vida,
Que Deus o comunicava.
Isto não é coisa nova,
Antes coisa mui provada,
Que Deus não quer ser vencido
Em cortesia extremada;
Seja a prova aqueles Monges
Do deserto da Tebaida;
Que se foram cometidos
Do inimigo malino,
Vestido em pel'd'alimária,
Como de um urso ferino,
Também do céu, como orvalho,
Lhes vinha o favor divino.
Mas se um incréu me pergunta
Por que hoje disso não há:
Pergunto: — por que o deserto
Flores, nem frutos não dá?
Por que não corre a corrente,
Se a fonte exaurida está?
O céu é sempre benino,
Água não leixa de haver;
Se a terra pois não produze,
Se a fonte não quer correr,
É terra, é fonte danada;
Penso que al não pode ser.
Ora uma noite que o Santo
Rezava as suas matinas,
Ouviu uns doces acordes
Como das harpas divinas,
Que os anjos tangem cantando
Louvor às pessoas trinas.
D'aquele mar d'harmonia
Voz que não era daqui,
Despega-se, e diz ao Santo:
— Gonçalo, que fazes hi?
« Oro, Senhor, lhe responde,
« Por todos e mais por mi!»
« É muito, a voz lhe tornava,
É muito, mais tudo não;
Faze-te prestes romeiro,
Toma a vieira, o bordão,
Esmola polas estradas,
Caminho reto a Sião.
« Pascem no monte Oliveto
As cabras do Galaat;
Retumba no templo augusto
A voz medonha de — Alá; —
Ferve ali muita aravia,
Muito homizio vai lá.
« Se entre os mãos um bom existe,
Poupa Deus a quantos são;
Porém carreira arrepia:
Caminho vai de Sião,
Na boca o nome divino,
Minguada esmola na mão.»
O bom santo alvoroçado
Apresta-se com trigança:
Cumpre divino preceito,
Só nele tem confiança,
Que vagar por longes terras
Prazer não é, mas provança.
É nada o trem d'um romeiro;
O Santo se apresta asinha,
Chama um parente lídimo,
Portas adentro o mantinha;
E entrega-lhe o seu rebanho
Com as ovelhas que tinha.
Dá-lhe a prebenda avultada,
E os mais benesses também,
Tudo com termos polidos,
Ou só de um santo, ou de quem
Só quer da vida o marteiro
E os prêmios que Deus lá tem.
E mui leal lhe encomenda
Seus pobres por derradeiro:
Ora lá vai caminhando
Aquele santo romeiro,
Pedindo a Deus em sua alma
Que lhe depare o marteiro!
Que ação que trescala a graça!
Que façanha peregrina!
Deixar o esposo prelado
A sua esposa divina,
E andar caminho da vida,
Vivendo vida mofina!
Àqueles pobres, seus filhos,
Em vida seus bens legou!
Que mais fez aquele Padre,
Que o livro santo louvou,
Que ao filho dá bondadoso
De quanto, em bem, lhe ficou?
Quem há hi que hoje se arrisque
A perfazer tal empresa?
Aquele ardor atrevido,
Aquela santa afoiteza
Foi timbre d'homens antigos,
Homens de lhana rudeza.
Não hoje, que o homem nasce
Franzino e fraco, inda mal!
Sem forças pera a virtude;
Só com valor infernal,
Pera as torpezas do crime
E pera o vício carnal.
Não hoje, quando o pecado
Usa de tanto disfraz,
Que só por artes malinas
E manhas de Satanás,
Pode o homem fazer tanto,
Como hoje em dia se faz!
Já vi em casa de um rico
Tal mesa com tal guisado,
Com cheiro tão penetrante
E adubo tão concertado....
Eu creio que só da vista
Ficava o jejum quebrado.
E vi também umas camas...
Delas não quero tratar:
Caí na conta que o Demo
Foi só quem n'as pôde armar;
Senti vertigens de sono,
Sem o poder dominar.
Fugi do engodo malino
Clamando por Deus Jesus,
Na boca o santo exorcismo,
Na fronte o sinal da cruz,
Braços cruzados no peito,
Fronte metida em capuz.
Então acabei comigo
De crer no que disse Deus
Ao bando dos seus discíp'los
E a turba dos fariseus,
Não ser azado que um rico
Possua o reino dos céus.
E entrando na minha cela,
Vista a penúria que eu vi:
Clamei que Deus fora grande
E muito bom pera mi;
Qu'esta pobreza em que vivo,
Certo, lh'a não mereci.
Partira pois São Gonçalo,
Partira, mas não sem dor:
No seu amado rebanho
Leixando, em vez de pastor,
Aquele falso parente,
Que foi um lobo tredor.
Olhos outrora do falso
Baixados humildemente;
Ditos e falas de santo,
Meneio e gesto consente,
Fizeram-no ter por santo:
Julgava assi toda a gente.
Aleive não há que dure,
Sem que se descubra alfim;
Logo de posse do bolo
Mostrou-se o vilão ruim;
Mostrou-se, qual sempre fora,
Padre não já, mais chatim.
Intruso que não rezava
Nem sequer seu breviairo;
Gastava dos bens dos pobres
Com boa sombra e doairo,
Pera si com mãos de rico,
Pera os outros — de usurairo.
Gastava em mulas possantes,
Em caça de altaneria,
Em ter matilha adestrada
E bem provida ucharia,
Em ter vestidos mui finos
Barrados de pedraria.
Trem real como ele tinha,
Por certo o não viu ninguém:
Cavalos de boa raça,
Falcões, açores também,
Criados e mesa larga,
Como hoje aqui poucos têm!
Quando saía a passeio
Todo garboso e luzido,
Ninguém diria ser Padre,
Senão duque esclarecido,
Ou senhor d'altos estados,
Ou infanção destemido.
Que o seu ginete mandava
Com tal arte e bizarria,
Que ao passar no povoado
Donas de muita valia,
Lindos olhos concertavam
Nas grades da gelosia.
E muitas vezes passando
Junto à mourisca seteira,
Morrer aos pés do ginete
Vinha a seta mui certeira,
Com letra e primor de amores,
De amores mãos mensageira.
Assi vivia este abade,
Enquanto que o verdadeiro,
Sem lar, sem teto, sem mesa,
Como pobre forasteiro,
Vagava por longes terras,
Vivendo como um romeiro.
Muitos anos são passados,
(Diz catorze a tradição)
Quando o divino romeiro,
Feita a sua devação,
Torna do bento sepulcro,
Gasto e quebrado ancião.
Alva e rara cabeleira,
Coma prata, reluzia,
Rosto de rugas cortado,
Barba que ao peito descia:
Homem de carne não era,
Senão pura notomia.
Dos anos e da moléstia
O corpo todo alquebrado,
Nos trajes pouco luzido,
Ou roto ou mal concertado;
À porta do novo abade
Batia o velho prelado.
Ergueu em voz já sumida
Um triste e piedoso brado,
Pedindo magra pitança
Com modesto gasalhado,
Que vem o pobre romeiro
Morto de fome e cansado.
Àquele pio reclamo
Acode medonho cão,
A cauda enrosca, e d'um salto
Investe ao santo ancião;
Rompe-lhe os rotos andrajos,
E arranca-lhe o seu bordão.
Acode o dono soberbo
Dizendo: Vai-te mendigo!
« Senhor, retrucava o Santo,
« Primeiro ouvide o que digo:
« Morro de fome e cansaço,
Não tenho lar, nem abrigo!»
— Não me praz ouvir-te agora,
Tornava o abade indino,
Mais que depressa esquecido
Que a opa do peregrino
Ou que a murça do romeiro
Esconde um ente divino.
— Sei, dizia, que na capa
De piedoso romeiro,
Vem gente de feio trato
E muito vil calaceiro:
Bem é de crer, como eu creio,
Que és deles — por derradeiro.
— Desse teu rosto medonho,
Que boas novas não traz,
Digo que o vi nos milhanos
Das serras de Monsarraz;
És predador das estradas:
Juro por São Satanás! —
Ouvido que foi tal nome,
Como de santo cristão,
Ao santo abade romeiro
Caiu-lhe o rosto no chão!
Dor que lh'entrara no peito,
Ficou-lhe no coração.
Que se ele era assi tratado,
Ele, vigairo e senhor,
Que não seria dos pobres,
Que em vez de terem pastor,
Tinham por guarda e vigia
Faminto lobo tredor.
O santo ficou penado
E cheio da contrição,
Que ao seu parente talvez
Foi meio de perdição,
E ao seu rebanho de mágoa,
E a si de muita aflição.
Alfim tornado do espanto,
Disse severo de si,
Com voz e tom d'agastado:
« Gonçalo sou, eis-me aqui!
« Venho ora tomar-vos contas
« Do que fizestes por mi!»
As frias mãos escarnadas
No seu bordão ajuntou:
Espera resposta dele,
Rosto nas mãos inclinou:
Prossegue; fundo suspiro
Do peito o velho arrancou.
« Certo que as vossas palavras
« Mal dizem com o que dissestes,
« Quando de vós me apartei;
« Co'o que vos me prometestes,
« Co'as lições que vos eu dei,
« Com a fé que me vós destes!
« Dissestes: na tua ausência,
« (Disseste-lo em hora má)
« Qualquer das tuas ovelhas
« Em mi abrigo achará;
« Qualquer dos pobres que leixas
« Aqui mantido será.
« Ora eis-me aqui!... e a mim próprio
« Negas um pouco de pão,
« Que só é de ser negado
« Ou a precito ou a cão;
« Negas-me té gasalhado,
« E o fogo do meu fogão!
« Levar daqui! sou Gonçalo;
« Dá-me pois o meu lugar,
« Dá-me as ovelhas coitadas,
« Que eu não devera leixar,
« Dá-me...» — Não pôde o Santo,
Não pôde, não, rematar!
Sobre a fronte, calva e nua
Viu descer grave pancada;
A testa de romania
Ficou em sangue lavada;
Aquele sangue bendito
Regou a terra danada.
Certo que os anjos no inferno
Sentiram muito prazer,
Vendo aquele mau prelado
Ação tão vil cometer,
E Santo tal afrontado,
Sem Deus lhe poder valer.
Mas o Santo milagroso
Que pôde tornar do pão,
Já não digo azima feia,
Senão massa de cravão
Triste, negro e inficionado,
Que nem era pera cão;
Que moveu rochedo enorme
Junto à ponte d'Amarante,
Chegando-lhe um dedo apenas,
Como se fora gigante;
Rocha que esforços baldara
De muita gente possante:
Que fez ele?... oh! nada fez!
Disse: « Deus o quer assi;
Sou eu criatura sua,
Bem é que ele mande em mi;
Não seja feito o que eu quero,
Mas o seu talante — si.
« É vossa a força que eu tenho,
Disse ele: em uso a não pus,
Que também sobre o calvário,
Vós, Senhor meu, bom Jesus,
Nem o calvário afundastes,
Nem sovertestes a cruz.
« Porque se eu, filho do barro,
Ser mesquinho, ou verme, ou nada,
Tenho em mi força divina
É pera ser empregada
No que é mister, porque seja
A glória vossa exaltada.»
Assi discorria o Santo
No seu profundo juízo;
Ora descansa no meio
Das glórias do paraíso:
Louvor a Deus! — e com isto
A lenda aqui finalizo.
Conto as coisas como foram,
Não como deviam ser;
Um Santo, mesmo porende,
Merece menos sofrer:
Julgo assi: Digam-n'os sábios
Qual é o seu parecer.
Cant'eu — sabença da terra
Tenho por coisa ruim,
Que serve só pera glória,
Que é só vanglória; e assi
Que como é coisa de orgulho,
No fundo inferno tem fim!
O homem que for prudente
Só pelos frades se reja;
Creia no Papa e nas Bulas,
E na santa Madre Igreja:
O mais é coisa de fumo,
Não sei de quem valor seja.
Que reze o santo rosairo,
Dou de conselho também;
Que assi viverá na glória,
E vive-se lá mui bem,
Cantando hosanas eternos
Por tempos sem fim: amen.

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