Parte II
Chapitre VI — Utiliser ses fautes pour devenir plus fervent
Capítulo VI — Aproveitar as faltas para se tornar mais fervoroso
II.6 1. — Il est temps de finir. Aussi bien, ce chapitre doit nous conduire au terme final de l'Art d'utiliser ses fautes, et au sommet de toute perfection : la ferveur du divin amour.
II.6 1. — É tempo de terminar. Aliás, este capítulo deve levar-nos ao termo final da Arte de aproveitar as próprias faltas e ao cume de toda perfeição: o fervor do divino amor.
Nous renvoyons aux derniers chapitres du second livre du Traité de l'amour de Dieu les lecteurs désireux de connaître la mystérieuse genèse de l'amour par la pénitence. Qu'il nous suffise de rappeler ici que la matière de cette dernière vertu, ce sont nos péchés, et l'on comprendra aisément le profit que, sous ce rapport, ils nous doivent procurer.
Remetemos aos últimos capítulos do segundo livro do Tratado do amor de Deus os leitores desejosos de conhecer a misteriosa gênese do amor pela penitência. Basta-nos lembrar aqui que a matéria desta última virtude são os nossos pecados, e logo se compreenderá o proveito que, sob esse aspecto, eles nos devem proporcionar.
La pénitence a divers actes. Nous l'envisagerons dans ceux qui précisément, dans le langage théologique et dans le langage populaire, portent le nom d'Actes du Pénitent : la confession, la contrition et la satisfaction, et qui sont matière, ou au moins parties essentielles du sacrement de la réconciliation.
A penitência tem diversos atos. Vamos considerá-la naqueles que, precisamente, na linguagem teológica e na linguagem popular, levam o nome de Atos do penitente: a confissão, a contrição e a satisfação, e que são matéria, ou ao menos partes essenciais, do sacramento da reconciliação.
Notre aimable Docteur a des enseignements sublimes sur chacun de ces trois points, et nous découvrirons, à la lumière de sa parole, les trésors que nous apportent nos fautes, en fournissant un aliment à ces opérations de nos âmes repentantes.
O nosso amável Doutor tem ensinamentos sublimes sobre cada um destes três pontos, e descobriremos, à luz da sua palavra, os tesouros que nos trazem as nossas faltas, ao fornecerem alimento a essas operações das nossas almas arrependidas.
L'accusation nous apparaît d'abord, avec le cortège des efforts qu'elle exige et des bénédictions qu'elle attire, comme un moyen puissant de transformer nos chutes en sources de mérites.
A acusação nos aparece primeiro, com o cortejo dos esforços que exige e das bênçãos que atrai, como um meio poderoso de transformar as nossas quedas em fontes de méritos.
« Cet amoureux cœur de notre Rédempteur mesure et ajuste tous les événements de ce monde à l'avantage des esprits qui, sans réserve, se veulent asservir à son divin amour... Il est vrai, ma fille, que nos fautes, lesquelles, tandis qu'elles sont dans nos âmes, sont des épines, sortant dehors par la volontaire accusation, elles sont converties en roses et parfums ; d'autant que, comme notre malice les tire dans nos cœurs, aussi c'est la bonté du Saint-Esprit qui les pousse dehors[23]. »
«Este amoroso coração do nosso Redentor mede e ajusta todos os acontecimentos deste mundo em proveito dos espíritos que, sem reserva, se querem sujeitar ao seu divino amor... É verdade, minha filha, que as nossas faltas, as quais, enquanto estão nas nossas almas, são espinhos, saindo para fora pela acusação voluntária, se convertem em rosas e perfumes; visto que, assim como a nossa malícia as atrai para dentro dos nossos corações, assim também é a bondade do Espírito Santo que as impele para fora[23].»
« Le scorpion qui nous a piqués est venimeux en nous piquant ; mais, étant réduit en huile, c'est un grand médicament contre sa propre piqûre. Le péché n'est honteux que quand nous le faisons ; mais étant converti en confession et pénitence, il est honorable et salutaire[24]. »
«O escorpião que nos picou é venenoso quando nos pica; mas, reduzido a óleo, é um grande remédio contra a sua própria picada. O pecado só é vergonhoso quando o cometemos; mas, convertido em confissão e penitência, é honroso e salutar[24].»
« La contrition et la confession sont si belles et de si bonne odeur, qu'elles effacent la laideur et dissipent la puanteur du péché. Simon le Lépreux disait que Madeleine était pécheresse ; mais Notre-Seigneur dit que non, et ne parle plus sinon des parfums qu'elle répandit, et de la grandeur de sa charité. Si nous sommes bien humbles, Philothée, notre péché nous déplaira infiniment, parce que Dieu en est offensé ; mais l'accusation de notre péché nous sera douce et agréable, parce que Dieu en est honoré. Ce nous est une sorte d'allègement de bien dire au médecin le mal qui nous tourmente. Quand vous serez arrivée devant votre père spirituel, imaginez-vous d'être en la montagne du Calvaire, sous les pieds de Jésus-Christ crucifié, duquel le sang précieux distille de toutes parts pour vous laver de vos iniquités. Car, bien que ce ne soit pas le propre sang du Sauveur, c'est néanmoins le mérite de ce sang répandu qui arrose abondamment les pénitents autour des confessionnaux. Ouvrez donc bien votre cœur pour en faire sortir les péchés par la confession ; car, à mesure qu'ils en sortiront, le précieux mérite de la Passion divine y entrera pour le remplir de bénédiction[25]. »
«A contrição e a confissão são tão belas e de tão bom odor, que apagam a fealdade e dissipam o fedor do pecado. Simão, o Leproso, dizia que Madalena era pecadora; mas Nosso Senhor diz que não, e já não fala senão dos perfumes que ela derramou e da grandeza da sua caridade. Se formos bem humildes, Filoteia, o nosso pecado nos desagradará infinitamente, porque Deus é ofendido por ele; mas a acusação do nosso pecado nos será doce e agradável, porque Deus é honrado por ela. É para nós uma espécie de alívio dizer bem ao médico o mal que nos atormenta. Quando tiverdes chegado diante do vosso pai espiritual, imaginai-vos no monte Calvário, aos pés de Jesus Cristo crucificado, cujo sangue precioso destila por todos os lados para vos lavar das vossas iniquidades. Porque, embora não seja o próprio sangue do Salvador, é, contudo, o mérito desse sangue derramado que rega abundantemente os penitentes em volta dos confessionários. Abri, pois, bem o vosso coração, para fazer sair dele os pecados pela confissão; porque, à medida que forem saindo, o precioso mérito da Paixão divina entrará nele para o encher de bênção[25].»
« Vous pratiquez (par la confession) la vertu d'humilité, d'obéissance, de simplicité et de charité, et en cette seule action de confession, vous exercerez plus de vertus qu'en nulle autre[26]. »
«Praticais (pela confissão) a virtude da humildade, da obediência, da simplicidade e da caridade; e, nesta única ação da confissão, exercitareis mais virtudes do que em nenhuma outra[26].»
« La confession et la pénitence rendent infiniment plus honorable l'homme, que le péché ne l'avait rendu blâmable[27]. »
«A confissão e a penitência tornam o homem infinitamente mais honrado do que o pecado o tinha tornado censurável[27].»
« O Dieu ! quel contentement au cœur d'un père très aimant, d'ouïr celui de sa fille protester qu'elle a été envieuse et maligne ! que bienheureuse est cette envie, puisqu'elle est suivie d'une si naïve confession ! Votre main écrivant votre lettre faisait un trait plus vaillant que ne fit jamais celle d'Alexandre[28]. »
«Ó Deus! que contentamento para o coração de um pai muito amoroso ouvir o de sua filha declarar que foi invejosa e maligna! como é bem-aventurada essa inveja, pois é seguida de uma confissão tão singela! A vossa mão, escrevendo a vossa carta, fazia um traço mais valente do que jamais fez a de Alexandre[28].»
Le Père Du Pont a sur le même sujet des considérations frappantes. Il fait ressortir les actes vertueux qui se multiplient dans l'aveu de nos fautes, et il n'hésite pas à l'appeler une œuvre de vertu surhumaine. C'est, dit-il, ce que semble insinuer Job, quand devant Dieu il se rend le témoignage de n'avoir jamais, « comme un homme, tenu son péché secret, ni caché son iniquité » (Job. XXX, 33).
O padre Du Pont tem sobre o mesmo assunto considerações impressionantes. Põe em relevo os atos virtuosos que se multiplicam na confissão das nossas faltas e não hesita em chamá-la uma obra de virtude sobre-humana. É, diz ele, o que parece insinuar Jó, quando diante de Deus dá a si mesmo o testemunho de nunca ter, «como homem, mantido em segredo o seu pecado, nem escondido a sua iniquidade» (Jó XXX, 33).
Saint Grégoire[29] affirme qu'il faut souvent plus de courage pour confesser un péché, qu'il n'en eût fallu pour l'éviter ; et l'on connaît le mot de saint Augustin : « Dieu accuse vos fautes ; si vous les accusez vous-même, vous voilà uni à lui. »
São Gregório[29] afirma que muitas vezes é preciso mais coragem para confessar um pecado do que teria sido preciso para evitá-lo; e conhece-se a palavra de santo Agostinho: «Deus acusa as vossas faltas; se vós mesmo as acusais, eis-vos unido a ele.»
Or, quand on songe qu'un péché, commis une seule fois, peut devenir par des accusations cent fois répétées, l'occasion de vertus et de mérites si incontestables, n'a-t-on pas toujours mieux le droit de redire : Felix culpa ! heureuse faute !
Ora, quando se pensa que um pecado, cometido uma só vez, pode tornar-se, por acusações cem vezes repetidas, ocasião de virtudes e de méritos tão incontestáveis, não se tem cada vez mais o direito de repetir: Felix culpa! feliz culpa!
2. — Les mêmes réflexions s'appliquent, avec plus de force encore, à la contrition. C'est ici que l'auteur de Théotime nous dévoilera le rôle vivifiant de la divine charité avec « son amoureuse douleur et son douloureux amour ».
2. — As mesmas reflexões se aplicam, com mais força ainda, à contrição. É aqui que o autor do Teótimo nos vai desvendar o papel vivificante da divina caridade, com «a sua amorosa dor e o seu doloroso amor».
« La nature, que je sache, ne convertit jamais le feu en eau, quoique plusieurs eaux se convertissent en feu ; mais Dieu le fit pourtant une fois par miracle. Car, ainsi qu'il est écrit au Livre des Machabées[30], lorsque les enfants d'Israël furent conduits en Babylone, du temps de Sédécias, les prêtres, par l'avis de Jérémie, cachèrent le feu sacré en une vallée, dans un puits sec, et au retour, les enfants de ceux qui avaient ainsi caché le feu l'allèrent chercher, selon ce que leurs pères leur avaient enseigné, et ils le trouvèrent converti en une eau fort épaisse, laquelle étant tirée par eux et répandue sur les sacrifices, selon que Néhémias l'ordonnait, soudain que les rayons du soleil l'eurent touchée, elle fut convertie en un grand feu.
«A natureza, que eu saiba, nunca converte o fogo em água, ainda que muitas águas se convertam em fogo; mas Deus o fez, contudo, uma vez por milagre. Porque, conforme está escrito no Livro dos Macabeus[30], quando os filhos de Israel foram levados para Babilônia, no tempo de Sedecias, os sacerdotes, por conselho de Jeremias, esconderam o fogo sagrado num vale, num poço seco; e, na volta, os filhos dos que assim tinham escondido o fogo foram procurá-lo, segundo o que os pais lhes tinham ensinado, e o acharam convertido numa água muito espessa, a qual, tirada por eles e derramada sobre os sacrifícios, conforme Neemias o ordenava, logo que os raios do sol a tocaram, se converteu num grande fogo.
« Théotime, parmi les tribulations et regrets d'une vive repentance, Dieu met bien souvent dans le fond de notre cœur le feu sacré de son amour ; puis cet amour se convertit en l'eau de plusieurs larmes, lesquelles, par un second changement, se convertissent en un autre plus grand feu d'amour. Ainsi, la célèbre amante repentie aime premièrement son Sauveur, et cet amour se convertit en pleurs, et ces pleurs en un amour excellent, dont Notre-Seigneur dit que plusieurs péchés lui avaient été remis parce qu'elle avait beaucoup aimé. Et comme nous voyons que le feu convertit le vin en une eau que presque partout on appelle eau-de-vie, laquelle conçoit et nourrit si aisément le feu que pour cela on la nomme aussi en plusieurs endroits ardente : de même, la considération amoureuse de la bonté, laquelle, étant souverainement aimable, a été offensée par le péché, produit l'eau de la sainte pénitence ; puis de cette eau provient réciproquement le feu de l'amour divin, dont on la peut proprement appeler eau-de-vie et ardente[31]. »
«Teótimo, no meio das tribulações e pesares de um vivo arrependimento, Deus põe muitas vezes no fundo do nosso coração o fogo sagrado do seu amor; depois esse amor se converte na água de muitas lágrimas, as quais, por uma segunda mudança, se convertem num outro fogo de amor, maior. Assim, a célebre amante arrependida ama primeiro o seu Salvador, e esse amor se converte em prantos, e esses prantos num amor excelente, pelo que Nosso Senhor diz que muitos pecados lhe tinham sido perdoados porque ela tinha amado muito. E, como vemos que o fogo converte o vinho numa água a que quase em toda parte se chama água-da-vida, a qual concebe e nutre tão facilmente o fogo que por isso em muitos lugares também a chamam ardente, assim também a consideração amorosa da bondade, a qual, sendo soberanamente amável, foi ofendida pelo pecado, produz a água da santa penitência; depois, dessa água provém reciprocamente o fogo do amor divino, e por isso se pode com propriedade chamá-la água-da-vida e ardente[31].»
« Voyez, je vous prie, Théotime, la bien-aimée Madeleine, comme elle pleure d'amour : On a enlevé mon Seigneur et je ne sais où on l'a mis ; mais l'ayant trouvé par les soupirs et les pleurs, elle le tient et possède par amour. L'amour imparfait le désire et le requiert ; la pénitence le cherche et le trouve : l'amour parfait le tient et le serre : ainsi qu'on dit des rubis d'Éthiopie qui ont naturellement leur feu fort blafard, mais étant mis dans le vinaigre, il éclate et jette son brillement fort clair ; car l'amour qui précède le repentir est pour l'ordinaire imparfait, mais étant détrempé dans l'aigreur de la pénitence, il se renforce et devient amour excellent[32]. »
«Vede, peço-vos, Teótimo, a bem-amada Madalena, como chora de amor: Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram; mas, tendo-o achado pelos suspiros e pelos prantos, ela o segura e possui por amor. O amor imperfeito o deseja e o pede; a penitência o busca e o acha; o amor perfeito o segura e o aperta: assim como se diz dos rubis da Etiópia, que têm naturalmente o seu fogo muito pálido, mas que, postos no vinagre, ele resplandece e lança um brilho muito claro; porque o amor que precede o arrependimento é, de ordinário, imperfeito, mas, embebido no amargor da penitência, se fortalece e se torna amor excelente[32].»
« Il n'est pas raisonnable que le péché ait autant de force contre la charité comme la charité en a contre le péché ; car le péché procède de notre faiblesse, et la charité, de la puissance divine. Si le péché abonde en malice pour ruiner, la grâce surabonde pour réparer ; et la miséricorde de Dieu, par laquelle il efface le péché, s'exalte toujours et se rend glorieusement triomphante contre la rigueur du jugement (Jac. II, 13). Ainsi toujours, ès guérisons corporelles que Notre-Seigneur donnait par miracle, non seulement il rendait la santé, mais il ajoutait des bénédictions nouvelles, faisant exceller la guérison au-dessus de la maladie : tant il est bonteux envers les hommes[33]. »
«Não é razoável que o pecado tenha tanta força contra a caridade quanto a caridade tem contra o pecado; porque o pecado procede da nossa fraqueza, e a caridade, do poder divino. Se o pecado abunda em malícia para arruinar, a graça superabunda para reparar; e a misericórdia de Deus, pela qual ele apaga o pecado, se exalta sempre e se torna gloriosamente triunfante contra o rigor do juízo (Tg II, 13). Assim, sempre, nas curas corporais que Nosso Senhor concedia por milagre, não só restituía a saúde, mas acrescentava bênçãos novas, fazendo a cura exceder a doença: tão bondoso é ele para com os homens[33].»
3. — Saint Bernard parle d'un parfum, qu'il appelle le parfum de la contrition, unguentum contritionis. « C'est celui, dit-il, que se compose l'âme enveloppée de plusieurs crimes, lorsque, se mettant à faire réflexion sur sa conduite, elle recueille, rassemble et broie, dans le mortier de sa conscience, une infinité de péchés de toutes sortes, puis, les jetant dans la chaudière d'un cœur tout enflammé, elle les fait cuire en quelque sorte sur le feu du repentir et de la douleur. Alors elle peut répéter après le prophète : Mon cœur s'est échauffé en moi-même, et le feu qui me dévore s'allume encore davantage lorsque je pense à mes crimes passés (Ps. XXXVIII, 4)[34]. La matière de ce parfum, il ne faut pas aller la chercher bien loin ; nous la trouvons sans peine chez nous et la cueillons avec abondance dans notre jardin, toutes les fois que nous en avons besoin. Car, à moins de se faire illusion, quel est celui qui n'a pas à sa disposition assez de péchés et d'iniquités dans son propre fonds[35] ? »
3. — São Bernardo fala de um perfume a que chama o perfume da contrição, unguentum contritionis. «É aquele, diz ele, que compõe para si a alma envolta em muitos crimes, quando, pondo-se a refletir sobre a sua conduta, recolhe, junta e mói, no almofariz da sua consciência, uma infinidade de pecados de toda espécie e depois, lançando-os na caldeira de um coração todo inflamado, os faz cozer, de certo modo, ao fogo do arrependimento e da dor. Então pode repetir com o profeta: O meu coração se aqueceu dentro de mim, e o fogo que me devora se acende ainda mais quando penso nos meus crimes passados (Sl XXXVIII, 4)[34]. A matéria desse perfume não é preciso ir buscá-la muito longe; achamo-la sem custo em nossa casa e a colhemos com abundância no nosso jardim, todas as vezes que precisamos dela. Porque, a menos que se iluda, quem é que não tem à sua disposição bastantes pecados e iniquidades no seu próprio terreno[35]?»
4. — Tous les sentiments les plus forts et les plus puissants viennent presser l'âme vraiment pénitente et la pénétrer par la brèche qu'y a ouverte le péché, pour centupler son amour envers la Divinité outragée : le regret d'avoir blessé le cœur de Dieu, la reconnaissance pour sa patience, pour la continuation de ses dons et pour l'effusion de son pardon, le besoin de lui faire oublier l'infidélité passée, et ce je ne sais quoi d'amer et d'onctueux qui donne envie de pleurer avec Madeleine devant le Sauveur et d'y pleurer davantage à mesure qu'il nous laisse plus volontiers baiser ses pieds et qu'il accueille plus miséricordieusement notre repentir. N'y a-t-il pas là de quoi allumer dans l'âme contrite une flamme de charité, qu'on ignorait avant la faute elle-même ? Et si l'on nourrit ces dispositions par le souvenir de ses péchés, à quels célestes embrasements ne peut-on pas parvenir !
4. — Todos os sentimentos mais fortes e mais poderosos vêm apertar a alma verdadeiramente penitente e penetrá-la pela brecha que nela abriu o pecado, para centuplicar o seu amor para com a Divindade ultrajada: o pesar de ter ferido o coração de Deus, a gratidão pela sua paciência, pela continuação dos seus dons e pela efusão do seu perdão, a necessidade de lhe fazer esquecer a infidelidade passada, e esse não sei quê de amargo e de suave que dá vontade de chorar com Madalena diante do Salvador e de chorar ali tanto mais quanto mais de bom grado ele nos deixa beijar os seus pés e mais misericordiosamente acolhe o nosso arrependimento. Não há aí com que acender na alma contrita uma chama de caridade que se ignorava antes da própria falta? E, se se alimentam essas disposições com a lembrança dos próprios pecados, a que celestes abrasamentos não se pode chegar!
« Plus on s'enfonce dans le divin amour, dit la séraphique Bénigne Gojos[36], plus ce souvenir devient poignant, et stimule le besoin d'aimer un Être si indignement outragé. » La faute n'a duré qu'un instant ; l'incendie d'amour dure toute la vie. Il peut doubler chaque fois que nous repensons à cette faute. Que dis-je ? il peut devenir éternel, et saint Louis de Gonzague devra, dans les siècles des siècles, à une ou deux imperfections, des flots d'ineffables voluptés que, sans elles, probablement, il n'eût point goûtées.
«Quanto mais se mergulha no divino amor, diz a seráfica Benigna Gojos[36], mais pungente se torna essa lembrança, e mais estimula a necessidade de amar um Ser tão indignamente ultrajado.» A falta durou só um instante; o incêndio de amor dura toda a vida. Pode dobrar cada vez que tornamos a pensar nessa falta. Que digo? pode tornar-se eterno, e são Luís Gonzaga deverá, pelos séculos dos séculos, a uma ou duas imperfeições, torrentes de inefáveis delícias que, sem elas, provavelmente não teria provado.
En effet, si tout souvenir volontaire, approbateur et complaisant d'une faute commise, est une tache de plus, il est juste que de nouveaux mérites récompensent l'âme justifiée, chaque fois qu'elle condamne, regrette et désavoue ses anciens péchés. Et ces désaveux pouvant se multiplier à l'indéfini, où s'arrêtera la somme possible de ces mérites ?
Com efeito, se toda lembrança voluntária, aprovadora e complacente de uma falta cometida é uma mancha a mais, é justo que novos méritos recompensem a alma justificada cada vez que ela condena, lamenta e repudia os seus antigos pecados. E, podendo esses repúdios multiplicar-se indefinidamente, onde se deterá a soma possível desses méritos?
D'après un immémorial usage, pas un pèlerin ne passe devant le tombeau d'Absalon, dans la vallée de Josaphat, sans jeter une flétrissure à la mémoire de ce fils dénaturé, et une pierre contre son mausolée. Sous les cailloux ainsi amoncelés par l'indignation publique, ce sépulcre d'un scélérat est devenu le monument du respect des peuples pour le quatrième commandement : Ton père et ta mère honoreras.
Segundo um costume imemorial, nenhum peregrino passa diante do túmulo de Absalão, no vale de Josafá, sem lançar um opróbrio à memória desse filho desnaturado e uma pedra contra o seu mausoléu. Sob as pedras assim amontoadas pela indignação pública, o sepulcro de um celerado tornou-se o monumento do respeito dos povos pelo quarto mandamento: Teu pai e tua mãe honrarás.
De même, chacune de nos fautes, faisant l'objet de regrets incessants, peut servir de base à une montagne de mérites.
Assim também, cada uma das nossas faltas, sendo objeto de pesares incessantes, pode servir de base a uma montanha de méritos.
Et qui dira la valeur et la fécondité qu'ajoute à ces repentirs l'absolution sacramentelle, chaque fois qu'il nous plaît de lui soumettre nos péchés passés ? Non seulement, la grâce sanctifiante refleurit alors plus abondante et plus splendide, avec des accroissements proportionnés aux dispositions du pénitent, mais le sang de Jésus-Christ recouvre, comme d'une pourpre divine, la place des souillures qu'il a effacées, et y substitue une sève d'énergie surnaturelle souvent plus vigoureuse qu'avant la chute[37].
E quem dirá o valor e a fecundidade que acrescenta a esses arrependimentos a absolvição sacramental, cada vez que nos apraz submeter-lhe os nossos pecados passados? Não só a graça santificante reflorece então mais abundante e mais esplêndida, com aumentos proporcionados às disposições do penitente, mas o sangue de Jesus Cristo recobre, como de uma púrpura divina, o sítio das manchas que apagou, e ali as substitui por uma seiva de energia sobrenatural muitas vezes mais vigorosa do que antes da queda[37].
C'est à ce point de vue qu'il faut se placer pour comprendre les expressions paradoxales parfois, en apparence, de ceux qui ont traité, ou qui parlent de l'art d'utiliser ses fautes. Un Religieux fort éclairé disait un jour, en présence d'une fervente communauté : « Mes Sœurs, une faute vous est quelquefois plus profitable qu'une communion. » Eh ! oui, dans un certain sens, parce que les réparations et les repentirs qu'amène une faute produisent souvent des effets plus durables, au moins plus sensibles, que la réception même de l'Auteur de la grâce.
É deste ponto de vista que é preciso colocar-se para compreender as expressões, às vezes paradoxais na aparência, dos que trataram ou falam da arte de aproveitar as próprias faltas. Um religioso muito esclarecido dizia um dia, diante de uma fervorosa comunidade: «Minhas Irmãs, uma falta vos é às vezes mais proveitosa do que uma comunhão.» Ah! sim, num certo sentido, porque as reparações e os arrependimentos que uma falta traz consigo produzem muitas vezes efeitos mais duradouros, ao menos mais sensíveis, do que a própria recepção do Autor da graça.
Il y a, ce nous semble, dans toutes ces pensées, un océan infini de consolations. On se sent pressé d'appliquer au péché ce que le prophète Osée et l'apôtre saint Paul disent de la mort : Il est absorbé par la victoire[38], par la victoire de l'amour.
Há, parece-nos, em todos esses pensamentos um oceano infinito de consolações. Sentimo-nos impelidos a aplicar ao pecado o que o profeta Oseias e o apóstolo são Paulo dizem da morte: Foi tragado pela vitória[38], pela vitória do amor.
Notas do autor
[23] Lettre à une Dame, 787e ; collect. Blaise.
[24] Pro anima tua ne confundaris dicere verum. Est enim confusio adducens peccatum, et est confusio adducens gloriam et gratiam. (Eccli. IV, 24-25.)
[25] Introd. à la vie dévote, 1re partie, chap. 19.
[26] Introd. à la vie dévote, 2e partie, chapitre 19.
[27] Avis aux confesseurs.
[28] Lettre à la Mère Favre, 361e ; collect. Blaise.
[29] S. Greg. Moral. c. 2.
[30] II Macchab. I, 19.
[31] De l'amour de Dieu, liv. II, chap. 20.
[32] Ibid.
[33] De l'amour de Dieu, liv. XI, chap. 12.
[34] Les âmes pénitentes ne sauraient trop se nourrir des sentiments exprimés dans les psaumes de David. « Quand je pense à ces belles prières, disait le vénérable curé d'Ars, je suis tenté de m'écrier : Felix culpa ! car si David n'avait pas eu à pleurer ses péchés, nous ne les aurions jamais eues. »
[35] In Cant. Sermo X, n. 57.
[36] Religieuse converse de la Visitation de Turin, morte en odeur de sainteté, le 5 décembre 1692. Voir sa Vie, soit le Charme du divin amour, page 128.
[37] Voir l'Art de la Perfection chrétienne, par le cardinal Sforza-Pallavicino, livre I, chap. IV et V.
[38] Osée, XIII, 14. — I. Cor. XV, 54.
Notas do autor
[23] Carta a uma senhora, 787.ª; coleção Blaise.
[24] Pro anima tua ne confundaris dicere verum. Est enim confusio adducens peccatum, et est confusio adducens gloriam et gratiam. (Eclo IV, 24-25.) [Trad.: Pela tua alma, não te envergonhes de dizer a verdade. Porque há uma vergonha que traz o pecado, e há uma vergonha que traz glória e graça.]
[25] Introd. à vida devota, 1.ª parte, cap. 19.
[26] Introd. à vida devota, 2.ª parte, capítulo 19.
[27] Avisos aos confessores.
[28] Carta à Madre Favre, 361.ª; coleção Blaise.
[29] São Greg. Moral. c. 2.
[30] 2 Mc I, 19.
[31] Do amor de Deus, liv. II, cap. 20.
[32] Ibid.
[33] Do amor de Deus, liv. XI, cap. 12.
[34] As almas penitentes não se poderiam alimentar demais dos sentimentos expressos nos salmos de Davi. «Quando penso nessas belas orações, dizia o venerável cura d'Ars, sinto-me tentado a exclamar: Felix culpa! porque, se Davi não tivesse tido de chorar os seus pecados, nunca as teríamos tido.»
[35] In Cant. Sermo X, n. 57.
[36] Religiosa conversa da Visitação de Turim, morta em odor de santidade em 5 de dezembro de 1692. Ver a sua Vie, ou seja, le Charme du divin amour, página 128.
[37] Ver l'Art de la Perfection chrétienne, do cardeal Sforza-Pallavicino, livro I, cap. IV e V.
[38] Os XIII, 14. — 1 Cor XV, 54.